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Poesia do Cotidiano

Contemplação da ausência

O Pantanal queima a mais de cem quilômetros da minha casa e eu varro as cinzas, na minha porta.

As dimensões do breve

As dimensões do breveMarília Bonna está em algum lugar entre o Rio de Janeiro – onde nasceu – e o Mato Grosso, onde foi criada. Habituada a fronteiras, gosta de estar entre a imaginação e a realidade. Por isso escolheu estudar Literatura, tornando-se mestre em Estudos Literários pela UFMT e leitora inesgotável, continuamente dividida entre aquilo que existe e aquilo que deveria existir. Adotou também o ofício de livreira, que exerce no Sebo Rua Antiga em Cuiabá, fundado por ela e seu companheiro, Thiago Iusso

13/09/2020 10h27
Por: Marília Bonna
Fonte: Marília Bonna
Foto: Izan Petterle
Foto: Izan Petterle

Não fosse o calor insuportável, a sede infinita, a dificuldade tremenda de chorar e as cinzas que preciso recolher diariamente da porta da minha casa, eu diria que estamos, nós todos e esta cidade, mergulhados em névoa – como num sonho. Do portão, não consigo ver o fim da rua: os prédios, os postes, as pessoas se desmancham, como se tragados pelo branco – o mesmo branco que, no momento seguinte a esta foto (eu não estava lá, mas eu sei), engoliu o pobre cavalo desnorteado, o cavalo que foge do fogo do Pantanal. Entre todos os tristes registros do fotógrafo Izan Petterle – com quem, vez ou outra, divido uma garrafa de vinho, e com quem sempre divido a estrada cercada de paredões que separa Chapada dos Guimarães e Cuiabá –, eu escolhi este para ilustrar a crônica de hoje, e por um motivo bem específico: porque é tão desolador quanto bonito e é bonito de uma maneira ofensiva, de uma maneira tão confusa que, por um minuto, deixa a gente sem saber se o que está vendo é mesmo a foto de uma tragédia ou de um atalho duma paisagem longínqua, talvez na Europa Oriental; de um cavalo desnorteado, que não sabe pra onde ir, ou de um cavalo selvagem seguindo tranquilo seu caminho (apenas surpreendido pela presença do fotógrafo); da densa fumaça de um incêndio colossal ou da névoa de um outono ucraniano, por exemplo. E porque esta fotografia é tão bonita que não deveria ser de uma catástrofe, eu a trouxe aqui para falarmos – num movimento contrário do que fiz na crônica passada – sobre a tristeza profunda, a feiura, a violência, que há em certas coisas bonitas, que há nesta fotografia.

A beleza do fogo é constrangedora, uma ferida brilhante no verde monótono do Pantanal, conforme podemos ver nas fotos tiradas de cima, por pássaros mecânicos. E a fumaça, numa fogueira desse porte, é tão espessa que – posso ver nos registros – mergulha toda a paisagem numa atmosfera irreal, numa atmosfera de sonho. Eu não estou lá e não consigo sentir o cheiro da fumaça, os olhos secos, o calor intolerável, a devastação de depois; o que me chega aqui, nessas fotografias, é uma beleza superficial que me deixa imaginar araras-azuis atravessando nuvens onde o que há, na verdade, são aves desesperadas para achar pouso, através da fumaça, porque os manduvis – árvores nas quais se reúnem todos os dias para dormir – foram consumidos pelo fogo. Eu não estou lá, é verdade, mas estou há pouco mais de cem quilômetros, onde a fumaça chega e onde consigo, sim, sentir o cheiro dela e os olhos secos e o calor intolerável – indícios da devastação de depois. O Pantanal queima, há mais de cem quilômetros da minha casa, e eu varro as cinzas na minha porta e meu nariz sangra e durmo e acordo todos os dias num deserto. É essa a violência da nossa tragédia (da nossa tragédia, que sai nos jornais como se fosse um sonho distante, uma paisagem remota, um outono na Ucrânia), uma violência que atravessa muitos quilômetros – mais, bem mais, que a distância entre o Pantanal e as cidades próximas, como Cuiabá: atravessa a distância entre a vida e a morte e, a mais profunda delas, entre o bicho e o homem.

Na foto do Izan, tão linda, um cavalo está prestes a ser engolido pelo branco: é preciso estar atento para entender esse branco não como a bruma, matéria de fantasia, mas como a ausência, o nada, o nulo. É preciso estar preparado para entender que por trás das coisas bonitas pode haver, como é o caso, imensa tristeza. Falando sobre isso, acabei me lembrando de outra fotografia, famosa por essa mesma dualidade: em 1947, foi publicada na revista Life a bela imagem, do fotógrafo Robert Wiles, com o inconcebível título de “O suicídio mais bonito do mundo”. Nela, a jovem Evelyn McHale parecia descansar tranquilamente sobre o teto de uma limusine, depois de se jogar do 86º andar do Empire State Building: o impacto de seu corpo, vindo de 170 metros, amassou brutalmente o carro, mas ela estava impecável, deitada serenamente sobre o que parecia, de tão leve, não uma placa de aço, mas um tecido flutuante; as pernas cruzadas, o rosto impassível. A mão esquerda segurava a medalha do pescoço, a mão direita repousava acima da cabeça. O fotógrafo alegou que não conseguiu suportar a beleza dessa contradição. Esta é uma lembrança esquisita porque não há nada em comum entre a remota suicida americana e o cavalo desnorteado do Pantanal, a não ser a presença invisível da morte, a não ser o inesperado da contradição. O cavalo, no entanto, diferente da mulher, está em fuga, tentando escapar dela (da morte) a todo custo. E eu só estou falando disso, que é um assunto que me dói, porque sempre me chocou essa incoerência, a possibilidade de se achar beleza em absolutamente qualquer coisa, por mais trágica que seja.

O registro de Robert Wiles (e de tantos e tantos fotógrafos documentais de guerra, por exemplo), o cavalo fugindo do incêndio, a lua alaranjada que, neste último mês – o mês das queimadas – iluminou Cuiabá. Reparei nela, chamei a atenção do Thiago para sua beleza, até me tocar de que aquilo era uma lua queimando, uma lua em agonia. Como o Pantanal, como os manduvis, como os animais tardios encontrados na beira da estrada, de língua de fora e patas queimadas. De novo, vou olhar a foto do Izan para me lembrar que aquele cavalo se encaminha para o nada, como muitos outros bichos de lá, como as garças-mouras, as jaguatiricas, as onças, os jacarés, os cervos, os campeiros, os (in)finitos bichos de lá. Ser engolido pelo nada é desaparecer, deixando para trás a terra, cheia de metano e de matéria orgânica, cinza e preta – e as plantas e as árvores também cinzas, também pretas –, como se estivessem de luto. Há mais de cem quilômetros, também nós choramos (ou tentamos chorar com olhos tão secos) essas ausências, juntando as pétalas negras dessa estranha flor que vem parar na nossa porta, nas nossas sacadas e janelas, todos os dias.

O Brasil nos observa de muito longe, pelas fotografias involuntariamente bonitas demais para dar conta da catástrofe; nos observa de suas cidades agradáveis, onde é possível caminhar pelas ruas durante as tardes; nos observa com suas samambaias úmidas dentro dos apartamentos, sem imaginar que o fogo é tanto que, mais que percorrer os cem quilômetros que nos separa dele, percorre, por exemplo, a distância inumerável até a lua. E consome planta, bicho, casa de ribeirinho, o corpo de quem se arrisca para combatê-lo, mas também coisas muito distantes, como o céu, o subterrâneo, o coração dos homens. Consome tudo, mesmo o que não conseguimos presumir. Tão violento como sutil. Disfarçando-se como pode: fingindo-se névoa, fingido-se esplêndida lua, fingindo-se qualquer coisa inocente, qualquer coisa estranhamente natural.

Como o cavalo da fotografia, também nós, distantes do fogo, estamos prestes a sermos engolidos pelos seus efeitos: o nada, a ausência, o nulo. Estamos todos cercados por esse perigo constante e capaz de dissipar qualquer vestígio de humanidade. Diferente do cavalo, no entanto, nossa inocência (de todos, por mais distante do fogo que estejamos) é uma inocência simulada – como a da lua laranja, a lua queimada. Daqui, de nossa cidade-fantasma, afogada em névoas imaginárias, em névoas de mentira, termino este texto – e nem é preciso estar tão atento para perceber – mandando sinais de (muita) fumaça.

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