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Poesia do cotidiano

O nervo vago

[...] como se um nervo pudesse ser vago, impreciso, confuso. Um nervo é um nervo: um filamento, um tecido fibroso, uma certeza.

As dimensões do breve

As dimensões do breveMarília Bonna está em algum lugar entre o Rio de Janeiro – onde nasceu – e o Mato Grosso, onde foi criada. Habituada a fronteiras, gosta de estar entre a imaginação e a realidade. Por isso escolheu estudar Literatura, tornando-se mestre em Estudos Literários pela UFMT e leitora inesgotável, continuamente dividida entre aquilo que existe e aquilo que deveria existir. Adotou também o ofício de livreira, que exerce no Sebo Rua Antiga em Cuiabá, fundado por ela e seu companheiro, Thiago Iusso

11/10/2020 10h44Atualizado há 1 semana
Por: Marília Bonna
Fonte: Marília Bonna
Imagem: Diego Max via Pinterest
Imagem: Diego Max via Pinterest

Temos no nosso corpo um nervo que se chama vago. Quando descobri isso, achei muito bonito e imaginei-o muito diferente dos outros nervos – para mim, todos inquietos, exaltados, elétricos –, imaginei-o impreciso, recatado: tão incerto que os outros nervos, preocupados com as próprias funções e trabalhando incansavelmente, nem se dão conta de sua existência; tão indeterminado que erra por nosso organismo como um viajante sem destino, talvez como um poeta. Mas não: quando fui pesquisar sobre ele, soube que é um nervo muito útil para o funcionamento geral, o mais longo dos cranianos, com funções tanto motoras quanto sensitivas, cuja responsabilidade é nada menos que ligar o cérebro ao corpo, ramificando-se em vários outros nervos ao longo do caminho: nada vago, portanto.

            Li alguns anos depois, na bela biografia escrita por José Castello, que também o poeta Vinícius de Moraes, quando descobriu a existência do nervo vago, atribuiu-lhe – por causa do nome – esse lugar de nervo fantasma, que existe e não existe ao mesmo tempo, e cuja função sensitiva seria necessariamente a de transportar – da nossa cabeça pro nosso corpo ou do nosso corpo pra nossa cabeça – sentimentos confusos; a de nos instalar sensações de vazio e dúvida. Foi o compositor Carlos Lyra, parceiro musical de Vinícius, quem contou isso para Castello: que o poeta, depois da descoberta, passou a ter certeza de que sofria de “vagotonia” – um sentimento indefinido de tristeza, que consiste em você não ter nada e mesmo assim se sentir triste. Um sentimento que só poderia ser provocado por um nervo chamado vago.

            Não é difícil acreditar no que acreditava Vinícius, quando pensamos que a palavra “vago”, além de carregar o sentido de qualquer coisa imprecisa e indefinível, também se refere a um lugar vazio, desocupado. E que, portanto, ele poderia ser, de fato, um nervo que nos conduz estranhas e inexplicáveis sensações de ermo, sem uma razão específica, só porque seria este, em meio ao universo que é o funcionamento de nosso corpo, seu miserável papel. Além disso, em minhas pesquisas sobre ele, vi que seu itinerário começa em nosso crânio e sai com destino ao nosso estômago, passando pela faringe, pela laringe e pelo coração. É através dele que nosso cérebro percebe esses órgãos, não outros, mas esses: o que liga nosso sistema respiratório ao digestivo (faringe); o responsável pela nossa capacidade de produzir som (laringe); o que bombeia nosso sangue (coração); o que recebe nosso alimento (estômago) – todos órgãos muito passíveis de serem atravessados por vazios incompreensíveis, os vazios de onde devem ter nascido alguns dos sonetos e baladas e canções do poeta, quem sabe.

            Eu acho prosopopeia uma das figuras de linguagem mais bonitas de todas: um recurso da poesia – como a metáfora, a sinestesia e a hipérbole – para se infiltrar nas coisas muito cotidianas ou muito banais ou muito científicas; um recurso da poesia para estar em tudo. Trata-se do exercício de dar a coisas não-humanas sentimentos ou características muito humanos, como o de dar a um nervo o nome vago (tal se pudesse também estar falando de uma pessoa um pouco inconstante), como se um nervo pudesse ser vago, impreciso, confuso. Um nervo é um nervo: um filamento, um tecido fibroso, uma certeza. Há outro exemplo de prosopopeia muito perto de nós e que eu acho encantador: o rio Triste, em Rosário Oeste – este lugar onde podemos flutuar em águas cristalinas como lágrimas, ao lado de peixes e arraias e outros seres estranhos, que olhamos muito admirados como se olhássemos nossas próprias dores submersas, nadando ao nosso redor. Criei minha teoria, um pouco absurda, a respeito deste nome, que é esta: das águas transparentes serem como lágrimas, já que só são transparentes por causa do calcário e sua natureza alcalina (a característica das águas limpas e salgadas). Até que eu soube da (lenda da) origem do nome, que é ainda mais bonita: conta-se que, antigamente, às margens do rio vivia um homem feliz, um homem que recebia os tocadores de gado e todos os outros passantes com um sorriso, um café e uma prosa. Um dia, os tocadores de gado e os demais passantes não foram recebidos por ele e fizeram a travessia um pouco mais tristes, até saberem que não seriam nunca mais recepcionados com sorriso e café porque o homem havia morrido e que, a partir de então, a passagem (e, portanto, o rio) seria sempre triste. A tristeza é um sentimento tão humano (tão não aquático) que, desde pequena, quando passo pela estrada de Chapada e leio o enorme outdoor que nos ordena “visite o rio triste”, eu sempre penso primeiro que o outdoor nos diz que nós é que devemos estar obrigatoriamente tristes para visitar este rio específico, como se fosse mesmo uma ordem, como se tivesse um funcionário para atestar a tristeza e permitir cada entrada. Só depois é que me lembro que  se trata apenas do nome do rio e que, por isso, deve ser permitida a entrada de pessoas felizes ou de pessoas vagas em relação aos próprios sentimentos.

            Voltando, então, às coisas vagas, li que este nervo, o vago, está sendo estudado para o tratamento de doenças tão diversas como a epilepsia e a depressão: porque, quando estimulado, descobriu-se que tem a dupla capacidade de acalmar e de provocar desmaios – o que é mais que suficiente para interromper inquietações, físicas ou emocionais. Assim, a teoria de Vinícius, sobre sofrer de “vagotonia”, fica ainda mais plausível.  Suponhamos, por exemplo, que o nervo vago seja mesmo este nervo por onde são transportados sentimentos indefinidos, que, quando incentivados, são capazes de interromper inquietações. Não seriam os poetas, todos eles, uma legião de vagotônicos, estimulando em si o nervo vago, alimentando-o indefinidamente com o produto da própria poesia?

            E aí me sinto, finalmente, na obrigação de corroborar essa teoria com outra biografia que li, anos depois da de Vinícius, e que foi escrita pelo mesmo José Castello (que, imagino, seja tão obsessivo quanto eu pelo nervo vago e pela poesia). Trata-se da biografia de João Cabral de Melo Neto, que recebeu o bonito nome de “O homem sem alma”, e que, entre outras coisas, nos conta que o poeta sofreu durante toda a vida de uma dor de cabeça ininterrupta e insuportável, tão poderosa que o impediu – e isso é absurdamente triste! – de gostar de música. Tendo se submetido, ao longo dos anos e dos países em que morou, a todo tipo de exames, tratamentos e cirurgias, sem nunca terem conseguido descobrir a causa, João Cabral, aos sessenta e sete anos, precisou ser operado às pressas de duas úlceras no estômago, causadas por seus excessos de aspirina.  Nesta cirurgia, cortaram-lhe, por acaso, o nervo vago e sua dor de cabeça, que durou seis décadas, subitamente cessou. Sem ela, o poeta passou seus últimos anos se lamentando por estar escrevendo menos e chegou ao extremo de confessar sentir falta da dor – como se sua poesia estivesse fundada no vago; como se o que tivessem rompido na cirurgia fosse a passagem secreta (e dolorosa?) entre o cérebro e o sentimento; e as sensações de estar respirando e cantando e se alvoroçando e matando a fome através da palavra estivessem perdidas no meio do caminho, sem saber o que fazer e pra onde ir: extremamente vagas.

 Como os tocadores de gado atravessando o rio. Tristes.

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