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Poesia do cotidiano

Uma poética da coleção (e dos colecionadores)

E só posso pensar que um colecionador seja, de alguma maneira, um mergulhador pressentido, que anda por aí, deslocado como o marinheiro sem mar de Sophia, atrás de tesouros esquecidos ou imaginados

As dimensões do breve

As dimensões do breveMarília Bonna está em algum lugar entre o Rio de Janeiro – onde nasceu – e o Mato Grosso, onde foi criada. Habituada a fronteiras, gosta de estar entre a imaginação e a realidade. Por isso escolheu estudar Literatura, tornando-se mestre em Estudos Literários pela UFMT e leitora inesgotável, continuamente dividida entre aquilo que existe e aquilo que deveria existir. Adotou também o ofício de livreira, que exerce no Sebo Rua Antiga em Cuiabá, fundado por ela e seu companheiro, Thiago Iusso

25/10/2020 11h03Atualizado há 4 semanas
Por: Marília Bonna
Fonte: Marília Bonna
Imagem: Andrea de Santis via Pinterest
Imagem: Andrea de Santis via Pinterest

Para Lilla e seu amor aos escafandristas.

Para Thiago, colecionador de tantas coisas e das minhas risadas.

 

Uma vez eu li em algum lugar – infelizmente não consigo lembrar onde – que existe por aí um colecionador de risadas e que, em seu pequeno gravador, ele conseguiu registrar milhares delas, em vários lugares do mundo pelos quais passou: risadas polonesas, risadas angolanas, risadas argentinas, turcas. Eu gosto de imaginar esse homem, em algum dia daqueles mais tristes, sentado sozinho em sua casa, ouvindo a risada dos outros: não é uma maneira bonita e inevitável de ficar, repentinamente, feliz? Penso que deve ser. E que ouvir a risada deserta da gente do Atacama, a risada contida da gente do Cazaquistão ou da Groelândia, a risada distante da gente das montanhas, pode ser um remédio eficaz para várias das nossas faltas – um antídoto para cada uma delas.

Amo coleções estranhas. Italo Calvino conta, num belo ensaio do livro “Coleção de areia”, que certa vez foi a uma exposição delas (sim, de coleções estranhas) em Paris. E que lá havia uma de chocalho de vacas, uma de tíquetes ferroviários e até uma de rãs embalsamadas, mas a que mais o deixou fascinado foi a coleção de areia: centenas de frasquinhos de vidro enfileirados e etiquetados com o nome do lugar de origem, onde – imóveis como ampulhetas esquecidas no armário ou fotografias de viagem – paisagens imaginadas, de praias sem vento e desertos sem sol, chegaram a ele em miniatura – silenciosas e eternas. Também eu fiquei fascinada com esse texto de Calvino, com suas reflexões sobre a melancólica colecionadora de areia – esta, que tenta aprisionar o infinito: não seriam os grãos de areia, como os oceanos, um tipo de infinito possível, talvez dos únicos tangíveis, para nós?

Se a colecionadora de Calvino quer encerrar o infinito em pequenos frascos, fazendo deles uma espécie de ampulheta incompleta, com um só compartimento e sem qualquer espaço para o lento escorrer da areia – uma ampulheta onde o tempo, pura eternidade, não passa –, Dionísio, o colecionador de relógios com quem tomei inúmeros cafés servidos com tâmaras, no encantado galpão que mantinha na rua Barão de Melgaço, muito pelo contrário, não consegue lidar com a ideia dos que se quebram: foi por isso que aprendeu a consertar todos os tipos, por ter pavor de não ver o tempo passar. Dio tem obsessão por relógios porque, aos dezesseis, não tinha dinheiro para comprar um e morria de medo de perder a hora e chegar atrasado no primeiro emprego, de copeiro numa churrascaria de São Paulo. Além disso, vindo de Portugal, há nele inevitavelmente aquele ar dos exilados, de quem está sempre perdido no tempo, de quem definitivamente precisa de um relógio. Ele juntou centenas. De pêndulo, de bolso, de cuco. Alemães, suíços, holandeses. De salas longínquas, corredores ignorados, quartos esquecidos. De casas felizes, de casas tristes, de casas nem felizes nem tristes. Centenas: de hora em hora, numa sinfonia exuberante e particular, que podia ser ouvida no galpão (fechado este ano), eles vêm lembrar ao menino Dionísio, em seu comprido exílio, que ele não está mais perdido. Ao menos, não no tempo.

Se bem que, na verdade, todo colecionador é um pouco perdido no tempo e no espaço e vive, de certa forma, como um desterrado – como o menino Dionísio, andando pela cidade sem saber das horas, adivinhando-as. E como o poeta Pablo Neruda, que – entre as inúmeras coleções a que se dedicou na vida, tinha uma destinada a “coisas do mar” – que iam desde conchas até pedaços de navios obscuros que os pescadores traziam do alto-mar para ele, que sempre se considerou um “marinheiro da terra”. Neruda julgava ter uma ligação ancestral com a água salgada, tanto que tinha uma casa em formato de embarcação e chegou a comprar um barco de madeira que, nunca tendo visto o mar, era usado para beber com os amigos, ancorado para sempre em seu jardim. Fico pensando não nesse marinheiro da terra (que nem sei como seria), mas nesse marinheiro em terra, eternamente deslocado como o do poema “Marinheiro sem mar”, de Sophia de Mello Breyner Andresen: aquele do homem que, distante da água, caminhava pelas ruas da cidade atordoado, balançando-se feito um mastro – sem propósitos. Também aqui em Cuiabá, neste deserto sem fim, temos um desses despropositados, um desses nostálgico das águas que, como o poeta chileno, nunca de fato viveu nelas: há por aqui, entre nós – na terra mais seca do mundo –  um colecionador de escafandros.

Fiquei um pouco deslumbrada ao saber que estava diante de alguém que colecionava escafandros, homem tão comum me pareceu. Escafandristas eram os mergulhadores remotos, habituais no século XIX, exploradores aquáticos usados para resgatar tesouros naufragados nos mares e participar da extração de minérios nos rios. Chamava-se escafandro, essa palavra mágica, a pesada roupa de mergulho e o capacete de borracha e latão que usavam para sobreviver por algumas horas submersos, como astronautas das águas. E só posso pensar que um colecionador de escafandros seja, de alguma maneira, um mergulhador pressentido, que anda por aí, deslocado como o marinheiro sem mar de Sophia, atrás de tesouros esquecidos ou imaginados: a metáfora perfeita para qualquer colecionador. Posso vê-los (os colecionadores), com frequência, entrando tímidos e esperançosos pela porta da nossa pequena loja de memórias, quase pedindo licença, feito os escafandristas nas ruínas de um navio: prontos para encontrarem tudo ou nada.

Como os colecionadores de moedas, que nos aparecem equipados com pequenina lupa e imensa perseverança, debruçando-se em nossa mesa, totalmente concentrados em sua própria ciência, a que dão o nome lindo – e também um pouco mágico – de numismática. O que acho mais bonito nos numismatas, além desse nome fascinante, é o fato de, na contramão do resto do mundo e do resto das pessoas, dedicarem tanto tempo, tanta atenção, tanto afeto a essas moedas desvalorizadas – essas, que (já) não podem comprar nada. São quase ingênuos, no melhor dos sentidos, em seu amor por dinheiro desprezado. Já os colecionadores de selos, de postais de viagens e de papéis de carta, acho pouco inocentes, na tentativa incompreensível de controlar o destino das coisas, descumprindo-as: quantas palavras de amor, afinal, desperdiçadas nessas três coleções, quanta ternura contida, quanto afeto guardado? Às vezes parece uma vontade triste de sufocar toda a saudade do mundo. De ter nas mãos a potência de algo, o sentimento irrealizável. Isso me faz pensar na famosa coleção de borboletas de Vladimir Nabokov, no propósito sombrio de guardar para si a liberdade, o voo, do outro. 

Sempre gostei mais de coleções que são promessas cumpridas, de objetos que voltam, depois de realizarem o próprio destino. Por isso, entre outras coisas que não cabem neste texto, coleciono cartas e postais enviados: a saudade manifesta, o amor expresso. Acabo, assim, me vendo – e isso talvez seja a profissão mais bonita de todas – como uma espécie de tutora de sentimentos alheios, que ficam por aí perdidos, órfãos, depois que seus donos partem (ou deles ou do mundo). Essa ideia dos sentimentos soltos, à espera de quem queira usá-los, me lembra a canção “Futuros amantes”, de Chico Buarque: onde há também os escafandristas, explorando essas coisas submersas e profundas – os amores esquecidos –, revirando as almas e os desvãos.

Escafandristas dispostos a descerem mais fundo, a despeito da roupa pesada: como certos colecionadores mais sentimentais, feito eu, feito o homem que guarda as risadas dos outros. Este, que se senta em sua sala, solitário, para viver o que foi, um dia e literalmente, a felicidade de alguém.

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