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FILOSOFIA DO MATO

Good vibes de uma elite viral

a espiritualidade de Instagram e a pandemia do coronavírus

Filosofia do Mato

Filosofia do MatoMãe, advogada e pesquisadora. Mestra e doutoranda em filosofia, mestranda em direito

04/01/2021 11h51Atualizado há 3 semanas
Por: Luciana Bonfim
Fonte: Alianna Cardoso
@darkerdaysillustration
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Acredito que uma das coisas que mais me enlouqueceu em 2020 (fora o combo básico pandemia + falta de coletividade + queimadas no pantanal) foi a justificativa que considero bizarra de que "cada um lida com a pandemia como pode". E não "tô" falando de gente que tem que "trampar" e acaba tendo de se expor diariamente sem muita opção de se ocupar verdadeiramente com o medo de contrair COVID. Seria uma cretinice de minha parte comparar esse tipo de exposição com a outra com a qual me refiro: a dos rolês Good vibes.

“Ah mas não dá pra parar de viver", eles dizem. Opa, não só dá como tem que. Mas não tô falando da crise econômica, assunto pra outro texto quem sabe. Aliás a classe média e burguesa com seus filhos de 30 anos que nunca trabalharam e seguem usando calça Jhon Jhon de 400 reais argumentar que não dá pra parar de viver e tirar do guarda roupa só de marca a frase clichê do "cada um lida com a pandemia com o quem tem dentro. Eu só tenho luz, por isso nem tá difícil pra mim. “Tô” emanando luz" é na verdade um ultraje.

Enquanto o mundo inteiro (especialmente o Amapá) segue no escuro, principalmente porque ainda hoje, enquanto escrevo esse texto, no Brasil não temos planejamento, seringa e agulha e muito menos vacina, essa gente se acha iluminada e imune ao vírus e “qualquer energia negativa". Sobre a falta de um planejamento do governo federal, nem vou falar do presidente que é outro tipo de canalha sacana que de bobo não tem nada e "tá" escondido atrás da pandemia porque quando ela acabar ele não tem como escapar. O discurso dele é um emaranhado de incompetência com "vou falar muita asneira mesmo pra esse povo focar nisso enquanto vou "passando a boiada" e protegendo minha família"". Nada de novo. Só o cenário perfeito para a necropolítica sem muito esforço. Mas eu realmente queria era mencionar outro tipo de canalha: esse que sobe pra Chapada com seu carro (ou do outro amigo rico, porque essa gente não liga de só fingir chiqueza e na real usa Jhon Jhon mas segue sendo sustentado pelos pais que muitas das vezes são trabalhadores que dão seu suor pela calça de "quase 300 reais"). Mas enfim, dessa gente que quero falar.

Gente que viaja pra praia, pro campo, pra puta que pariu ignorando completamente que ainda estamos vivendo uma pandemia. E não viaja só. Essa gente não vive sem aglomeração. Gente que sobe a serra atrás do clique perfeito cheio de Good vibes enquanto chegamos a quase 200.000 mortos pela covid19, mas se agarrando num discurso zen espiritualizado que na real é uma inércia que esconde um imenso egoísmo da qual nem se tem consciência. Bem fácil ser budista de Instagram sem precisar trabalhar, com cartão ouro no nome da mamãe no bolso e com bastante tempo pra praticar o abominável exercício de ser egoísta mimado e fingir uma compreensão pelo mundo espiritual que na verdade não dá nem pra chamar de resiliência porque de fato é só egocentrismo mesmo.

 Essa gente é cúmplice do vírus. Sim porque seus rolês assintomáticos colocam em risco a vida das gentes que mencionei lá em cima, que não tem nem como se dar ao luxo do #quarentener ou sequer teve a possibilidade de se isolar nenhuma vez, já que ou morre do vírus ou de fome, então melhor se arriscar. Essa gente é a pior pra mim. A geração Y que ou é viciada em look do dia do "insta" ou é viciada em frases de osho enquanto finge absoluta dedicação ao espiritual mas não é capaz de parar os rolês pra "cachu" pra "tirar essas energias ruins" desse ano "super difícil em que nem se pôde viajar em março pra arraial" porque o lockdown (que durou pouco no meu ponto de vista) atrapalhou os planos. Justo agora que ele ia arrumar um emprego. Ah vírus maldito!. (Mas que bom né, mais um ano na cola do pai, comprando pela internet o vestido da farm que tava só 500 reais na "promo" ou pagando de bacana com whisky de 400 reais em mais uma noite na balada pra postar com a hashtag #aquisocoisasboas) enquanto acende mais um incenso e faz sua prática Good vibes espiritualizada de quem nunca viveu perrengue. O escárnio da crueldade da Good vibes tóxica e elitista.

Como vi Karnal mencionando outro dia, a pobreza impede a felicidade. Você não vai ver nenhum miserável, faminto, desesperado pra pagar as contas ganhando uma miséria como entregador do look do dia de alguém, nem as mães sem saber o que ofertar pra suas crias enquanto o auxílio do governo acabou de acabar, postando hashtag #soenergiasdobem. Essa "felicidade" Good vibes zen namastê de Instagram perversa e medíocre tem a ver com grana sim ou pelo menos com estilo de vida que importa um status econômico elitizado.

Essa gente sobe pra Chapada (é de nossa Chapada que quero falar, mas isso serve pra “São Miguel do Gostoso", “Cabo Frio" ou qualquer lugar com suas belezas naturais e ar provinciano) pra se esbaldar com as fotos do Morro dos Ventos ou das inúmeras cachoeiras enquanto o povo chapadense segue tentando sobreviver com esse mesmo turismo tóxico, mas sem muita opção de ganha-pão. Na verdade, a inércia dessa gente só não é mais deletéria que a do governo, mas aumenta o contágio mais que a nova cepa do vírus. Aquela que ironicamente ganhou o nome de B17 (ou algo assim). Escrevo pra falar dessa gente que vomita Good vibes espiritualizada sem sequer conseguir pensar que ser zen mesmo nesse momento, é pensar no coletivo, se manter isolado, ficar em quarentena real. Dar um tempo dos cliques instagramáveis, se importar menos com o alcance das postagens e focar mais na solidariedade. Pra mim, Good vibes é bem mais isso. E se antes esse discurso já era tóxico diante de tantas mazelas sociais que esse país já possui, agora é assassino. Good vibes cúmplice de desgraça de quem é pobre e precisa trabalhar porque essa galera também é incapaz de usar máscara pra não atrapalhar seu look do dia. E nisso tudo, no "cada um lida com o vírus como pode", essa elite escrota e cafona, dá carona pro vírus em cidades pequenas sem a mínima estrutura de saúde e depois volta pra casa pra fazer suas resoluções de ano novo que incluem "não poder parar de viver" enquanto tanta gente não teve como escolher.Ali

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