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FILOSOFIA DO MATO

Reality "xô"

O big brother da vida surreal

Filosofia do Mato

Filosofia do MatoMãe, advogada e pesquisadora. Mestra e doutoranda em filosofia, mestranda em direito

16/02/2021 09h04Atualizado há 2 semanas
Por: Luciana Bonfim
Fonte: Alianna Cardoso

Quase 12 meses de pandemia e se tem algo que não mudou nada (e nem vai) é nosso interesse patológico pela fuga da realidade. Prova disso é estarmos de frente a TV por mais um ano assistindo a mais uma versão de um reality show que de realidade não tem nada: gente trancafiada numa casa alto padrão, vivendo conflitos novelescos e infantis acerca de uma convivência forçada em busca de um prêmio milionário enquanto se bronzeia sob o sol dos patrocinadores desse esquema televisivo superficial e frenético. 

Enquanto isso, na mesma frequência que estamos apopléticos em frente à TV, a boiada desgovernada passa e mais de 1.000 mortes por dia fazem parte do telejornal que "preferimos não assistir, porque nos faz mal".

É surreal que estejamos permitindo essa cortina de fumaça na miséria do real para nos voltar para um jogo cheio de pessoas reunidas discutindo premissas desimportantes numa visível fuga da realidade.

Pode até ser surreal, mas nada estranho. É o mansorerê sem o lago do manso. A casa de veraneio chapadense sem Chapada. É a idealização televisiva de um sonho neoliberal que acompanha nossa história por anos: uma casa luxuosa com muitas festas, gente bonita e um acampamento fictício que pode culminar com um prêmio em dinheiro ou com uma fama nesse palco social abrasileirado de Hollywood tupiniquim. 

Eu compreendo que nesse episódio dessa série orwelliana haja também discussões que vem a público e contribuem para debates importantes, como preconceito racial e de gênero. Mas me causa arrepios estarmos assistindo TV meio dopados, enquanto a pandemia só piora e o desmonte das políticas públicas avança. 

De fato, é um reality "xô". Um adeus à realidade momentânea e superficial, mas que ganha adeptos dentre aqueles que não querem mais ver jornal - porque faz mal.

Me preocupa sobre como estamos falseando a realidade diante de uma pandemia que não acabou. Me preocupa como estamos ocupando nosso tempo influenciados por uma vida irreal. 

Não há qualquer tipo de reforma na vida real enquanto estivermos presos ao surreal. A fuga doentia da realidade em tempos de pandemia é a principal patologia desse momento crucial. Um reality "xô" que alimenta nossos devaneios diante de uma vida surreal temporária televisionada, enquanto paramos de assistir diante da catatonia dos escombros da morte real.

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