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Poesia do Cotidiano

Rua Antiga – Diário de bordo nº 1

Memórias de uma loja de Memórias

As dimensões do breve

As dimensões do breveMarília Bonna está em algum lugar entre o Rio de Janeiro – onde nasceu – e o Mato Grosso, onde foi criada. Habituada a fronteiras, gosta de estar entre a imaginação e a realidade. Por isso escolheu estudar Literatura, tornando-se mestre em Estudos Literários pela UFMT e leitora inesgotável, continuamente dividida entre aquilo que existe e aquilo que deveria existir. Adotou também o ofício de livreira, que exerce no Sebo Rua Antiga em Cuiabá, fundado por ela e seu companheiro, Thiago Iusso

21/03/2021 09h05Atualizado há 4 semanas
Por: Marília Bonna
Fonte: Marília Bonna

Para quem não sabe, “Rua Antiga” somos eu, Thiago e um tanto de saudade – nossas e alheias: uma lojinha de memórias, criada para cuidar do destino das coisas e que hoje atravessa toda nossa vida, como uma rua, vinda de não sei onde, e muito muito longa. Começamos o projeto em 2016, a bordo do nosso fusquinha 1969: éramos então um sebo itinerante, ocupando a cidade e os arredores, e desde essa época eu escrevo um diário de bordo. Como se o fusca fosse uma embarcação numa viagem fantástica, feita de peixes extraordinários que precisassem ser documentados com urgência: para quando em algum momento futuro, estando já em terra firme e monótona, nós mesmos não duvidássemos da beleza e do inacreditável do percurso. Hoje, cinco anos depois, tenho um caderno cheio de memórias, que continuo alimentando, mesmo que agora sejamos essa embarcação sem mar, suspensa no centro da cidade, onde – não me perguntem como – peixes extraordinários ainda vêm parar. Acho que a metáfora foi longe demais e que é um exagero, quando só o que quero dizer na verdade é que essas memórias são para mim como peixes incomuns – breves, belos, escorregadios –, que preciso capturar na única rede que possuo, a da palavra, para que não se percam para sempre. 

*** 

Chapada dos Guimarães, Praça Dom Wunibaldo, 29 de março de 2017 

“Tenda dos Milagres”. É o nome de um livro do Jorge Amado – o livro que ele escolheu e me pediu pra guardar: voltaria pra buscar no fim do dia, depois de conseguir o dinheiro pra pagar. Sete reais. Fico triste por não lembrar seu nome. Vou ter que inventar. Francisco lhe cairia bem: usava sandálias e tinha os olhos doces, além de um cachorro ao lado (de olhos mais doces ainda). Eu não me lembro o nome do Francisco, mas lembro que me disse ser de uma família de garimpeiros, cujas noites solitárias e vazias a mãe ocupava com os livros, à força de lamparinas. Por isso me pediu pra guardar Jorge Amado, pra matar sua saudade.

Mais tarde, soubemos por outras pessoas que ele vende raízes na Chapada. E que recolhe animais na rua (Francisco lhe caiu mesmo bem), e cuida com tanto amor que fiquei pensando se lê Jorge Amado pra eles: o jeito de cuidar que aprendeu com a mãe, afinal.

Francisco voltou pra buscar o livro, e agradeceu por ser barato (duas vezes), e guardou no carrinho que empurrava – o carrinho em que levava suas raízes.

Eu e Thiago conversamos sobre isso depois, aqui em casa. As nossas própria noites solitárias e vazias temos preenchido com essas histórias: por exemplo, a de um homem feliz por ter conseguido comprar um livro. No nosso sebo. Tenda dos Milagres. 

Cuiabá, Casa Cuiabana, 22 de maio de 2017 

Papéis de carta: as meninas antigas sabem o que é. Colecionávamos. E hoje penso que era a coleção mais triste do mundo (mais até que os selos), feita de cartas desperdiçadas. Inumeráveis cartas não escritas: de elefantinhos de mãos dadas sob o luar, de gatinhos em cestinhas de piquenique, de coelhos segurando flores – essas promessas. Chegaram-nos há pouco, extraviados, quase sem querer: dentro de livros usados, em caixas secretas.

Eu e Thiago cuidamos desses papéis prometidos, carregamos conosco para alguns lugares. Entre os livros e gibis antigos, quedaram-se discretos, caladíssimos (como de costume), até que hoje ela os encontrou. E sorriu.

Não tem mais que dez anos de idade, chama-se Bruna, e foi a primeira que reparou-lhes o desconsolo: os elefantinhos de mãos dadas sob o luar. E pediu para a mãe, pediu para o pai, e eles deixaram que escolhesse dois. Ela não sabe, menina recente, que escolheu os dois mais queridos das meninas remotas: os filhotes da cestinha (tão desamparo), o gatinho de laço no pescoço (tão ternura). E como as meninas antigas, Bruna certamente irá guardar esses papéis. Entre páginas de livros, de possíveis gibis, eles vão envelhecer discretos, mais uma vez descumpridos – duas cartas nunca escritas enfeitando a gaveta. Continuamente. 

Cuiabá, Goiabeiras, 16 de abril de 2017 

São pentezinhos da década de setenta, que muito provavelmente nosso avô carregava no bolso da camisa. “Pentes Inquebráveis”. Do meu, eu lembro. Pedro Cearense, sandálias de couro, óculos de lentes levemente esverdeadas, camisa de botão – pente inquebrável no bolso.

“Inquebrável”, ri quando eu e Thiago ganhamos a caixinha: amarelinha, os pentes saindo em cascata de dentro dela, tão antiguinhos. Com eles, vieram as lembranças desse avô. De todos os avôs (mesmo dos que nunca tiveram um pente inquebrável). Ficamos algum tempo apegados àquela caixinha, pedaço de nostalgia na janela do banheiro. Até que hoje resolvemos carregá-la no fusca para ver o que acontecia.

O primeiro que levou o pente inquebrável foi um senhorzinho – uns setenta anos ali, nas sandálias de couro, nos óculos de lentes levemente esverdeadas, na camisa de botão. Eu estava ocupada na hora, Thiago me chamou de longe, querendo dividir comigo aquela cena: a do senhorzinho guardando o pente no bolso da camisa. Inquebrável. 

Cuiabá, Fernando Corrêa da Costa, 30 de Setembro de 2017 

1. Um músico levou nossa caixinha de música antiga: ele ficou encantado com o fato de poder guardar uma melodia na estante de casa. E carregar pra onde quisesse. Nas mãos.

2. Amanda, uma menina que a gente nunca tinha visto, pediu pra me dar um abraço depois que eu disse os preços dos livros que ela queria tanto - e que, por acaso, encontrou na nossa estantezinha de promoção. E deu.

3. Um moço contou suas moedas para comprar um postal, que custa oito reais. Ele tinha sete e oitenta e cinco e não aceitou quando dissemos que podia ser sete. Deu os oitenta e cinco também: a aquarela do Thiago lembrava sua infância - ele disse. Queria dar o máximo que tinha em mãos por ela. Fiquei em dúvida se falava da aquarela ou se falava da infância. 

Cuiabá, Centro, 11 de abril de 2018 

Levávamos um abajurzinho antigo, da década de setenta. Aquele em que a cúpula é feita de escamas de vidro (com florezinhas pintadas), o que dá o efeito mais lindo do mundo quando está ligado.

Saímos com ele hoje. Da década de setenta. A moça que comprou me disse que vai dar de presente para a bisavó, em seu aniversário de cem anos. Isso quer dizer que, na década de setenta, a bisavó já tinha cinquenta e poucos anos e que, portanto, o abajurzinho antigo não é antigo pra ela.

Por mais delicado que ele seja, com suas escamas de vidro, seu corpo de porcelana, suas florezinhas desbotadas: ela é ainda mais - vidro, porcelana, flor desbotada. Cinquenta anos mais.

Achei bonita essa inversão, esse descuido do tempo. 

Cuiabá, Boa Esperança, 30 de julho de 2018 

Francisco, o nome do meu pai e o nome do pai dela, mas isso eu ainda não sabia. Fazia poucos minutos que eu tinha colocado na vitrola o disco “Poly e seu conjunto Moendo Café”, para presentear os ouvidos do meu Francisco, que estava visitando nosso sebo pela primeira vez. Isso aconteceu sábado, numa feira da UFMT. Meu Francisco fechou os olhos pra curtir o som do “Moendo Café” – e isso, vocês sabem, é ter muito respeito pela música, é ter a delicadeza infinita de não se distrair com mais nada – e me contou que escutava esse mesmo álbum nas noites escuras da roça, num radinho de pilha, muito tempo antes de mim. Eu gostei de imaginar esse tempo impossível.

E aí apareceu esse outro Francisco, pai dela: da mulher que eu percebi chorando, diante da nossa vitrolinha, diante de “Poly e seu conjunto Moendo Café”. Eu não a conhecia, mas, claro, me aproximei pra perguntar o motivo da tristeza. E ela me disse que era porque o Francisco dela subitamente aparecera, de algum lugar perdido na memória, sentando em sua cadeira, em manhã remota de domingo, lendo jornal e ouvindo esse disco – esse mesmo que o meu Francisco escutava, em noites quase esquecidas, noites escuras da roça; esse mesmo que meu Francisco escutava há quinze minutos, na feira da UFMT.

De repente era eu quem chorava, abraçando uma desconhecida, confundindo nossos Franciscos: o meu, que tinha me dado um beijo e ido embora há pouco; o dela, que fora embora há muito tempo. Mexer com a memória tem dessas coisas. 

Ela levou o disco mesmo sem ter vitrola. 

***

Nunca soube direito o que fazer com todo esse material e agora, que tenho um espaço (aqui) e que ando com menos tempo pra escrever por causa do meu filho, pensei em dividir – às vezes e aos poucos – essas pequenas histórias que não quero esquecer. Uma série de memórias que aparecerão em intervalos regulares, quando eu não conseguir escrever uma crônica especialmente pra cá.

Este foi, então, o diário número um. 

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