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UBUNTU

Ubuntu como filosofia do afeto para tempos em que morremos

Na tentativa da tradução para o português, ubuntu seria “humanidade para com os outros”

Filosofia do Mato

Filosofia do MatoAlianna Cardoso é mãe, advogada e pesquisadora. Mestra e doutoranda em filosofia, mestranda em direito

24/03/2021 17h47Atualizado há 4 semanas
Por: Luciana Bonfim
Fonte: Alianna Cardoso
Arte de Tamires Nobre.Este cartaz foi produzido como atividade da matéria
Arte de Tamires Nobre.Este cartaz foi produzido como atividade da matéria

São tantas lutas a serem travadas enquanto este pesadelo infinito chamado pandemia acontece, que a gente, de tão indignada, pode se esquecer, por descuido, de um exercício crucial pra enfrentarmos essa situação: o afeto.

Então, este texto hoje trata de uma filosofia afetiva como proposta de enfrentamento. Talvez porque eu esteja exausta de brigar tentando convencer a quem não se convence - a exemplo do presidente - de que a pandemia é grave, sim, e que, enquanto todos não estiverem seguros, ninguém está seguro.

Na verdade, eu queria estar escrevendo sobre outra coisa qualquer. Ando sentindo falta de reclamar dos problemas de sempre, aqueles da vida adulta normal: cansaço, salário baixo, vida corrida, a amiga que pisou na bola, coisas da vida.

Só não tem sido possível "fazer a egípcia" e fingir que está tudo bem, porque obviamente não está.  Mas hoje me dou ao direito de fazer outra coisa para além de falar do óbvio. Hoje quero acolher como prática filosófica ubuntu.

Uma sociedade sustentada pelos pilares do respeito e da solidariedade faz parte da essência de ubuntu, filosofia africana que trata da importância das alianças e do relacionamento das pessoas, umas com as outras. Na tentativa da tradução para o português, ubuntu seria “humanidade para com os outros”. Uma pessoa com ubuntu tem consciência de que é afetada quando seus semelhantes são diminuídos, oprimidos. De ubuntu, as pessoas devem saber que o mundo não é uma ilha: “Eu sou, porque nós somos” (Fonte: Ubuntu: A Filosofia Africana Que Nutre O Conceito De Humanidade Em Sua Essência. Portal Geledés. Disponível em geledes.org.br).

Então, hoje este texto é um acalento a quem se perdeu vítima da gestão contra o coronavírus no Brasil. Este texto é para as mães órfãs de filhos, que talvez tenham se contaminado pela dificuldade quase infantil de compreender a necessidade de evitar aquele rolê; este texto é um afago nas crianças órfãs de mães e pais que se infectaram na luta pelo ganha-pão diante deste Estado negligente, que age como se não fosse sua própria obrigação possibilitar nossa segurança alimentar durante este caos; este texto é também um abraço a todos e todas que estão, como eu, sufocados pela falta de oxigênio e de esperança.

Este texto é ubuntu. É como dizer que eu sou humano, e a natureza humana implica compaixão, partilha, respeito, empatia. Mas, se assim o é, eu posso supor que nem todos são humanos. Que nesta toada neoliberal sistematizada pelo capital, alguns muitos, chefiados pelo governo federal, mas também independentemente dele, deixaram, há tempos, sua humanidade.

Este texto é pra quem, assim como eu, não perdeu.

Com este texto, eu quero dizer ubuntu a você. Quero que você se cuide. Quero que você se revolte contra o fato de o Estado não estar amparando nossos irmãos em humanidade. Quero que você consiga fazer sua parte e usar máscaras e evitar sair de casa o máximo que puder, porque você entende ubuntu. Com este texto, quero que você sinta que não está sozinho, que ainda estamos aqui e que continuaremos resistindo porque sobreviver é nossa resistência neste momento. Com este texto, quero dizer que a cada minuto que um brasileiro padece e falece de uma doença para a qual já existe vacina e é possível conter através de distanciamento social, sendo necessário para tanto aporte financeiro do governo, o resto de nós também morre um pouco. Eu morro um pouco. Porque, afinal, o ubuntu no fundo, como fundamento tradicional africano, articula um respeito básico pelos outros. Ele pode ser interpretado tanto como uma regra de conduta ou ética social. Ele descreve tanto o ser humano como “ser-com-os-outros” e prescreve que “ser-com-os-outros” deve ser tudo. 

Então, não há como não morrer quando tantos de nós morremos. Ainda assim, estaremos aqui ubuntu a quem persiste e vem sobrevivendo a essa diária mortes de nós. 

Ubuntu!

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