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ENSAIOS

Sobre o Humor

Fazer humor é um labor para mim. Arranjar as palavras de modo a atingir o clímax do riso ou ao menos daquele gracejo que vem permeado de consciência social é um deleite

Ensaios

EnsaiosEduardo Butakka é ator, professor de Teatro formado pela UnB e comunicólogo formado pela UFMT.

05/04/2021 10h44Atualizado há 2 semanas
Por: Luciana Bonfim
Fonte: Eduardo Butakka

Recebi o gentil convite de escrever periodicamente para este jornal. O pedido veio com uma sentença: “escreva sobre o que quiser”. Ora, isso não se faz. Liberdade demais é expulsar o ser humano do paraíso. 

Pois bem, fiquei matutando sobre como eu inauguraria essa coluna, sobre qual assunto escreveria. Decidi seguir a máxima dos roteiristas: “escreva sobre aquilo que conhece”. Então, a partir daqui, levante a mão quem quiser falar e eu irei ignorar elegantemente, pois é minha vez de opinar. 

Sou humorista. Trabalho com humor há 17 anos. Significa que faço isso a metade da minha vida. 

Já fiz muita piada ruim. Já fiz piada que hoje eu não faria mais. Amadureci e passei a ter outro entendimento do que é fazer humor. Não faz sentido para mim nenhuma piada que deprecie uma minoria. Então, aquele comentário jocoso sobre o gay, a trans, o negro, a gorda... Nada disso tem graça pra mim. Simplesmente não consigo rir. 

Estou ficando velho e intolerante com esse tipo de humor. E nem é pelo fato de considerar um ato sórdido, mas por considerar preguiçoso mesmo. Detesto humorista preguiçoso tanto quanto evito os preconceituosos.

Fazer humor é um labor para mim. Arranjar as palavras de modo a atingir o clímax do riso ou ao menos daquele gracejo que vem permeado de consciência social é um deleite. O poder da piada bem construída é incomparável. 

Vivemos um momento de guerra e me sinto no front de batalha munido apenas das minhas piadas. Posso ser certeiro como um franco-atirador ou aleatório como uma metralhadora. O que não posso é ter medo. Medo de debochar de todos os opressores, de todos os poderosos. Imaginar pessoas oprimidas como eu, mas que muitas vezes não tem a oportunidade que eu tenho de se expressar e fazer sua mensagem chegar, rindo, gargalhando é muito bom. É bom demais. 

O artista vai ser sempre alvo de críticas. Ou por ser alienado ou por ser engajado demais. Para mim, a solução é alternar entre esses dois extremos: faz uma piada boba, corre e chuta a canela do político canalha. É isso. Somos o palhaço que passa a mão na bunda do rei e toda a corte ri, inclusive o próprio rei. Esse é o grande desafio do humorista e não ficar fazendo piadas sobre mulher, bicha, preto...  Dá preguiça. 

Já ouvi críticas do tipo: “você era mais engraçado quando não falava de política”. Talvez. Mas é que um belo dia eu acordei e pensei “ei, eu também quero rir e eu só consigo gozar assim”. Entendo que esse pensamento vem do mesmo lugar de quem pensa que dá pra separar a arte da política. Eu simplesmente não consigo separar essas gêmeas siamesas. Preciso de um cirurgião com mãos mais hábeis que as minhas.

Ouvi também essa: “você não tem medo de falar dos políticos nos seus shows?”. Não. Esse tipo de político não vai ao teatro. 

E é isso. Desculpe se não teve graça. Às vezes, eu falho miseravelmente no meu ofício.

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