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LABCOM A LENTE

Vó Francisca, aos 107 anos, resistiu a epidemias e à pandemia da covid-19

Quilombola, benzedeira e parteira, é referência de resistência e de raízes de Chapada dos Guimarães

07/04/2021 11h58Atualizado há 2 semanas
Por: Priscila Mendes
Fonte: Por Juliana Mara, aluna do LabCom A Lente
Foto por: Bruna Obadowski
Foto por: Bruna Obadowski

Sem poder receber visitas, em sua casa em Chapada dos Guimarães, a benzedeira Francisca Correa Costa fará 108 anos no próximo dia 08 de outubro. Vó Francisca, como é conhecida, já superou as epidemias de varíola e da gripe espanhola, que assolaram Mato Grosso de 1915 até meados de 1973. Cheia de vivacidade, lamenta que este ano não poderá oferecer sua tradicional festa às crianças, no dia 12, dias depois de seu aniversário, por causa da  pandemia da covid-19.

Para superarmos a pandemia, dona Francisca acredita que precisamos de sentimentos que parecem faltar neste momento de números recordes de casos de contaminação pelo novo coronavírus em Mato Grosso: fé e bom senso. "Para a cura da covid-19, também é preciso buscar com mais fé", diz, recomendando a todos: "Precisamos ficar em casa e evitar contato físico com as  pessoas de fora".

A reconhecida benzedeira tem menos de 1,45m de altura, cabelos completamente brancos e um sorriso enorme. Chapadense, nasceu na região de Lixeira, na comunidade de Lagoinha de Baixo, zona rural de Chapada dos Guimarães. Vó Francisca é mãe de 12 filhos e parteira desde os seus 10 anos de idade.

“No momento, ela não está mais benzendo, devido a perda de sua visão. Nós temos medo de ela se queimar com as velas. Mas, direto, têm pessoas querendo que ela benza, têm algumas que entendem a preocupação dos filhos, têm outras que não. E tem algumas que vão lá só para conversar com ela e pedir conselhos", conta Luciana Corrêa da Costa.

Foto por: Bruna Obadowski

Dona Francisca é uma das últimas benzedeiras de Chapada dos Guimarães.Para ela, o benzer é uma forma de ajudar as pessoas. "É um dom dado por Deus”, acredita.

Ela vislumbra que foi o seu dia-a-dia de mulher quilombola que trouxe tanta gente à vida neste mundo como parteira. “Foram os partos que me fizeram conhecida. É por isso que depositam toda confiança nas bênçãos”, explica a idosa.

Lagoinha de Baixo

Como vó Francisca, o quilombo onde ela nasceu resiste ao tempo. Desde 2007, a comunidade da Lagoinha de Baixo, a 28 quilômetros de Chapada, espera a regularização fundiária das 32 famílias que ainda vivem lá. Todos se autodenominam quilombolas. "Aqui nós passamos o tempo trabalhando, trabalhando e curtindo a comunidade. Trabalhamos na roça e ainda cultivamos a mesma fé”, diz Elzito Reis de Castro, presidente da Associação Quilombola Comunidade Negra Rural Lagoinha de Baixo, sobrinho de dona Francisca.

O grupo pertence a descendentes de africanos escravizados no Brasil. Dona Francisca nasceu duas décadas depois do fim oficial da escravidão, mas seus pais eram escravos.

O reconhecimento e direito à terra das comunidades quilombolas existem desde 2003, pelo Decreto nº 4.887, que regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos.

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária  (Incra) é o órgão competente para lidar com essa questão. O último procedimento é a titulação, que ocorre em nome da associação da comunidade. Na região de Lagoinha de Baixo, as famílias aguardam o Incra finalizar o processo de desapropriações, indenização e 'desintrusão' de ocupantes não-quilombolas para definir a demarcação da área. Um levantamento preliminar já aponta a existência de 10 famílias não-quilombolas na região.

A comunidade que vive em Lagoinha de Baixo descende dos negros escravizados das primeiras fazendas de Sant’Ana da Chapada, o nome anterior de Chapada dos Guimarães. A região abastecia a primeira capital de Mato Grosso. A fundação oficial do núcleo que originou o atual município de Chapada dos Guimarães deu-se no ano de 1751.

Covid-19

Dona Francisca, mesmo cega e sem benzer,  ainda aconselha quem a visita, o que causa um pouco de apreensão às filhas e cuidadoras da anciã. O último boletim epidemiológico de Chapada dos Guimarães registrou que, até ontem (06), 49 pessoas morreram de covid-19 e 1237 pessoas testaram positivo para a doença.

A vacinação da Covid-19 segue lenta no Brasil, mas dona Francisca já foi vacinada, embora suas filhas e cuidadoras não. Apesar da pandemia, a esperança de Francisca é poder reunir toda família para o seu próximo aniversário, em 08 de outubro.

*Juliana Mara, aluna do LabCom A Lente, projeto de comunicação apoiado pela Lei Aldir Blanc realizado com jovens de Chapada dos Guimarães

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