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PANDEMIA

Cara a cara com o vírus

A escolha de Margo

Cacá Barros

Cacá BarrosCacá Barros é jornalista e reikiana, empenhada em fazer a diferença. Chegou em Mato Grosso em 1985, quando ficou conhecida por suas reportagens em tribos indígenas, no Pantanal e Chapada dos Guimarães. Editou a primeira revista sobre ecoturismo em Mato Grosso (Eco Tour News). Especializou-se em comunicação institucional, assessoria de imprensa, edição, roteiros, documentários, revistas, gestão pública em comunicação, marketing eleitoral, marketing empresarial, elaboração e divulgação de projetos

08/04/2021 21h16Atualizado há 2 semanas
Por: Cacá Barros
Fonte: Cacá Barros

Apenas um membro infectado é o suficiente para que famílias inteiras sejam dizimadas pelo vírus. Contraem o corona pelo simples convívio no período assintomático ou pela necessidade de cuidar dos entes queridos. Minha amiga Sueli Batista foi um dos tantos exemplos de família infectada. Em 2020, a mãe contraiu Covid, depois ela, o irmão e a cunhada foram infectados, cuidando da mãe no hospital. Infelizmente a mãe dela faleceu (que Deus a tenha!), mas os cuidadores amorosos venceram o bom combate, ficaram para contar a experiência e continuar a missão. São muitos os exemplos de superação, assim como muitas situações de perda e dor.

Milhares de famílias estão perdendo seus entes queridos, um após o outro, em curto espaço de tempo. Não há mais como culpar os alarmistas para encobrir o colapso na saúde. E para entender o que isso realmente significa, não é suficiente se informar do sofá, nem vociferar na mídia social. É preciso ficar cara a cara com o vírus.

Foi o que aconteceu com nossa família. Para salvar minha mãe, de 84 anos, de uma pneumonia, foi preciso decidir quem iria correr o risco de se infectar, conscientes de que era uma escolha que faz a diferença entre a vida e a morte.

A decisão foi monocrática, rápida e sem debates. Margo, a segunda irmã de cinco filhos da irmã Santinha, se antecipou. Não havia muito tempo, a ambulância estava chegando e alguém da família teria que acompanhar.

A princípio, o objetivo era fazer um raio X e tínhamos esperança que pudesse voltar para casa. Mas não foi assim, ela estava com o pulmão esquerdo 100% comprometido. O primeiro teste deu negativo para covid, mas era preciso tratar a pneumonia e fazer outro teste mais confiável. Logo, a internação foi confirmada, a previsão era de sete dias para receber medicamentos e oxigênio. Eu não sabia o que se significava se internar na UPA de Chapada dos Guimarães, pensei que as duas estavam protegidas, separadas dos casos de covid. Mas a realidade era totalmente diferente.

Não se ouve o barulho de um único tiro, mas o ambiente é de guerra. Pessoas passando mal pelo corredor, todas as instalações da UPA lotadas. Minha mãe e minha irmã estavam num pequeno quarto, onde cabiam apenas duas camas e uma cadeira de plástico. As camas eram distantes menos de um metro uma da outra, separadas por um biombo. Ao lado das duas, um paciente infectado com covid tossindo a noite toda.

Sem vagas em hospital ou UTI em Cuiabá, a UPA de Chapada transformou-se, às pressas, em hospital, pronto socorro, atendimento aos pacientes de covid e das demais doenças.  Exaustos, os profissionais da saúde fazem um esforço concentrado para dar conta de uma demanda que só aumenta. Não adianta mandar para Cuiabá, os pacientes estão sendo intubados às pressas, ali mesmo, da maneira possível.

Em algumas horas, Margo viu pelo menos três corpos embalados em sacos plásticos passando pelos corredores. Num outro dia, ao levar sua filha para fazer exames na UPA, nossa cuidadora ouviu do médico: "evite vir aqui, temos 14 pessoas internadas com covid, mas só quatro vão sair daqui com vida".

No meio do caos, protegida apenas por duas máscaras e muita fé, Margo não aceitou revezar, nem comigo, nem com a cuidadora. Ela fez uma escolha consciente de permanecer ali e correr o risco para não termos mais pessoas infectadas. Argumentou que eu estou no grupo de risco, a cuidadora tem três filhos pra criar e ela confia na sua imunidade.

Desde o início, vivemos a pandemia em circunstâncias diferentes. Eu isolada e sendo a louca do álcool em gel. Ela, respeitando todos os cuidados, mas continuou trabalhando, cuidando dos netos e em convívio social, mesmo que restrito. Durante o primeiro ano da pandemia, tomou própolis e vitaminas para fortalecer o sistema imunológico. E o mais importante, vibra positivo para não ser alcançada pelo vírus. A nobre escolha de Margo foi encarada por ela como um caminho natural e ela agiu, aparentemente, com muita tranquilidade.

Eu, ao contrário, não fiquei nada tranquila. Recebi uma forte dose de adrenalina, a partir daí, foi dada a largada para uma corrida contra o tempo. Precisávamos montar, às pressas, os equipamentos de oxigênio em casa e contratar profissional da saúde para tirar as duas da UPA. Tínhamos apenas o sábado pela manhã, até 12 horas, para encontrar oxigênio e comprar os equipamentos. A cada dia internadas ao lado de um paciente com covid, aumentavam as chances de se infectarem.

Estava disposta a contrair dívidas para custear o tratamento, mas logo entendi que não basta ter dinheiro. Ricos e pobres estão igualados, vivendo o drama da escassez de equipamentos e insumos, impotentes para salvar seus entes queridos.

Em cada lugar que passei, ouvi histórias dramáticas e de superação. Não consegui locar um concentrador de oxigênio, um aparelho elétrico que produz oxigênio. A funcionária me falou que alugaram todos, lamentando que agora precisa para um parente, mas não estava encontrando nem oxigênio para comprar.

Saí do local desnorteada com a possibilidade de não encontrar oxigênio. Tínhamos somente duas horas para procurar e comprar todos os equipamentos necessários. Caso contrário, elas ficariam mais cinco dias internadas na UPA.

Depois de uma busca bem tensa, encontramos o oxigênio em Várzea Grande. Lá ouvi a história de uma funcionária que perdeu a mãe e quase perdeu o pai para a covid. "Ele me pediu para sair do hospital, queria morrer em casa. Montamos o oxigênio, ele venceu o vírus, mas está de cadeira de rodas por causa das sequelas".

Ficamos animados, conseguimos o oxigênio, agora só faltavam os equipamentos para instalação, além de oxímetro para medir a saturação. Voltamos tranquilos, bastava passar numa loja especializada em equipamentos médicos. No caminho começamos a ligar. Não acreditei quando uma a uma das empresas foi nos respondendo que não tinham os equipamentos para vender. 

Tínhamos o oxigênio no carro, mas todo esforço foi inútil. Ligamos para todas as lojas anunciadas na internet e indicadas por amigos. Pelo Whats, minha amiga Ana Maria Bezerra acompanhava e me ajudava a procurar, vivendo a agonia comigo solidariamente.

Às 11h55, meu fiel parceiro Wanderson me olhou e disse antes de ligar: "nossa última tentativa". Respirei fundo, me concentrei e orei. A partir das 12h, todo o comércio estaria fechado. E, na última tentativa, faltando cinco minutos para loja fechar, encontramos todos os equipamentos necessários.

O desafio é que precisávamos atravessar Cuiabá, do Porto até próximo a rodoviária. Passamos por momentos de filme de ação. Para chegar a tempo, Wanderson ultrapassou sinal fechado, cortou ônibus, foi costurando pela movimentada av. Prainha, improvisou atalhos até chegarmos na loja, já fechada, mas com os funcionários nos esperando para efetuar a venda.

Pegamos a estrada de volta para Chapada achando a paisagem ainda mais bonita. Nossa missão estava cumprida. Eu chorava como criança, aliviando a tensão e adrenalina das últimas horas.

Após o resultado negativo para covid e toda estrutura montada em casa, o médico liberou a saída da UPA. Elas voltaram para casa, minha mãe continuou o tratamento e as duas entraram em quarentena juntas. Tínhamos pela frente 15 dias de expectativa e apreensão. Naqueles dias internadas, elas teriam contraído covid?

 O custo médio para retirar minha mãe e minha irmã de um ambiente de risco foi de quase mil reais por dia. Fico imaginando, quantos porcento das pessoas conseguem montar uma estrutura para tratamento domiciliar? Essa seria  a diferença entre a vida e a morte?

Passei as duas noites em que elas ficaram internadas fazendo reiki, orações, criando domos de proteção energético para que não fossem infectadas. Na segunda noite, percebi anjos e muitos socorristas espirituais pairando acima da UPA. Ao sentir a presença de um ser divino com longas asas, postado entre a mãe e o paciente ao lado, fiquei aliviada e reforcei minha fé de que daria tudo certo.

E tudo deu certo, graças a Deus! Após 15 dias, minha mãe está curada e nenhuma das duas foi infectada pelo vírus. Graças à coragem e à escolha de Margo, estamos todos bem, contando pra vocês essa história de dor e superação.

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