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DESENCARNE COLETIVO?

Desencarne coletivo como justificativa espiritualizada da política da morte

Nota mental: não confundir predestinação espiritual com necropolítica

Filosofia do Mato

Filosofia do MatoAlianna Cardoso é mãe, advogada e pesquisadora. Mestra e doutoranda em filosofia, mestranda em direito

10/04/2021 09h41Atualizado há 1 mês
Por: Luciana Bonfim
Fonte: Alianna Cardoso

Venho ouvindo desde que a pandemia começou algumas frases que justificam as mortes decorrentes do coronavírus como se fossem resultado de uma predeterminação divina, o que vem contribuindo para que as pessoas não se cuidem adequadamente baseados em sua religiosidade. E, mais recentemente, alguns movimentos justificando a morte em massa das vítimas da covid-19 como uma "limpeza espiritual da Terra".

O primeiro movimento usa o argumento de que "ninguém morre de véspera", para acreditar que seja destino se infectar e que a fé protegerá. Eu não discordo absolutamente de que a fé contribua para que vivamos uma vida melhor, porém, daí a acreditar que o vírus não seja uma morte evitável, me faz questionar se as 350 mil pessoas que morreram até aqui padeciam de falta de fé.

O argumento de limpeza espiritual da Terra é ainda mais assustador e problemático, porque endossa a falta de gestão e de cuidados individuais contra a pandemia, por encontrar em si mesma a justificativa de que uma limpeza mortal estaria preparando a Terra para uma próxima era. Então indago se os mortos até aqui são considerados, pelos defensores dessa teoria, como sujeitos que mereciam morrer.

Na verdade, trata-se de um desrespeito imenso e mais uma explicação simplista que encoberta a necropolítica sustentada por esse governo.

Poderíamos adotar o termo "eugenia espiritual" para essa higienização daqueles que aparentemente estariam numa vibração inferior aos padrões da Terra e, por isso, foram "escolhidos" para essa "limpeza espiritual", já que "ninguém morre de véspera".

Esse discurso místico pode rapidamente se tornar uma política da morte disfarçada de evolução espiritual e é muito importante que não confundamos uma coisa com a outra.

Achille Mbembe, um filósofo camaronês, escreve o termo necropolítica para explicar o tipo de política que se sustenta na sociedade pós-moderna, em que os governos têm o poder de ditar quem deve viver e quem deve morrer. No contexto da pandemia, tem uma relação direta com a precariedade do trabalho e a ausência de recursos de subsistência, haja vista a população mais vulnerável estar mais suscetível à morte pelo coronavírus do que as classes mais altas.

Essa ideia de que morrer de covid "foi Deus quem quis" é também uma falta de empatia cruel com as famílias que tiveram perdas durante essa ausência total de amparo estatal.

Pra piorar, a ideologia de que o vírus mata as pessoas mais fracas e ficarão apenas as mais fortes - e que isso faz parte da lei da vida - endossa a ideia maniqueísta de que existe um forte e um fraco e quem "venceu" a covid é mais forte do que quem morreu dela. Imagine você que acabou de perder um ente querido ainda ter de lidar com essa ideia grotesca de que seu familiar não era bom o bastante pra ficar no planeta após essa limpeza.

É cruel e desrespeitoso.

O tal argumento de desencarne coletivo não pode nos fazer cegar diante da negligência do Estado com a vida da população.

De fato, o que estamos assistindo pode ser entendido como uma higienização social sim, haja vista  que homens negros são os que mais morrem pela covid-19 no país, conforme a Faculdade de Medicina da UFMG: são 250 óbitos pela doença a cada 100 mil habitantes. Entre os brancos, são 157 mortes a cada 100 mil. Os dados são do levantamento da ONG Instituto Polis, que analisou casos da cidade de São Paulo entre 01 de março e 31 de julho do ano passado. Entre as mulheres, as que têm a pele preta também morreram mais: foram a 140 mortes por 100 mil habitantes, contra 85 por 100 mil entre as brancas. Outro levantamento, desta vez pelo IBGE, mostrou que mulheres, negros e pobres são os mais afetados pela doença. A cada dez pessoas que relatam mais de um sintoma da covid-19, sete são pretas ou pardas. Esse padrão se explica por desigualdades sociais e pelo preconceito.

Ou seja, essa predestinação religiosa ou espiritual estaria vinculada à cor da pele e à situação econômica e, se assim fosse, significaria dizer que Jesus Cristo, aquele que pregava a humildade, a coletividade e a proteção aos mais frágeis, estaria, junto a Deus, seu pai, "livrando a Terra" brasileira de pretos e pobres?

Veja o tamanho da desumanização nesse argumento e como há um padrão burguês nesse discurso de uma meritocracia de viver.

De fato, se podemos pensar com Mbembe, que é exatamente um filósofo negro, é possível avaliar a necropolítica que subsiste nesse cenário desigual e injusto instalado pela pandemia.

Então, a nota de mental de hoje é "não confundir predestinação espiritual com necropolítica", para justificar a areia movediça sociológica em que nos metemos. Assumamos de uma vez que a responsabilidade pelo que está acontecendo é totalmente humana, como diria Nietzsche: humano demasiado humano. 

Referências:

https://www.medicina.ufmg.br/negros-morrem-mais-pela-covid-19/

MBEMBE, Achille. Necropolítica. 3. ed. São Paulo: n-1 edições, 2018. 80 p.

NIETZSCHE, Friedrich. Humano Demasiado Humano (tradução de Paulo Cezar de Souza). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

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