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Poesia do Cotidiano

Gente que não gosta do fim

A menina que guarda o doce pra comer depois, é dessa menina que eu quero falar

As dimensões do breve

As dimensões do breveMarília Bonna está em algum lugar entre o Rio de Janeiro – onde nasceu – e o Mato Grosso, onde foi criada. Habituada a fronteiras, gosta de estar entre a imaginação e a realidade. Por isso escolheu estudar Literatura, tornando-se mestre em Estudos Literários pela UFMT e leitora inesgotável, continuamente dividida entre aquilo que existe e aquilo que deveria existir. Adotou também o ofício de livreira, que exerce no Sebo Rua Antiga em Cuiabá, fundado por ela e seu companheiro, Thiago Iusso

18/04/2021 16h01Atualizado há 4 semanas
Por: Marília Bonna
Fonte: Marília Bonna
Akira Kusaka via Pinterest
Akira Kusaka via Pinterest

Foi numa conversa de fim de tarde com a avó do Thiago – lembro bem – que fui apresentada ao fantástico verbo “pepinar”, que nunca tinha ouvido. Ela contava uma história de quando era criança – numa Cuiabá antiga, que sempre me parece inventada – e, em algum momento, disse ser uma menina que pepinava muito e que isso irritava a mãe. Falou assim, naturalmente: como se fosse um verbo banal, como se não fosse a língua portuguesa me surpreendendo em plena calçada, às cinco da tarde. É claro que perguntei sobre, e ela me explicou com um exemplo: “é tipo quando a gente ganha um doce e come bem aos pouquinhos pra ele durar mais”. A mãe ficava brava, porque todos os irmãos acabavam rápido e sentiam inveja dela depois, a única que – muito orgulhosa –  ainda tinha o doce.

Pepinar vem de “cortar pepino” – depois eu pesquisei. Não há outra forma de comer pepino a não ser cortando-o em pedacinhos: ele, assim, é sempre uma coisa a ser consumida aos poucos, como devem ser as coisas muito veementes – ou pelo sabor ou pela força ou pela beleza delas. Essa imagem da menina guardando o doce pra comer depois, da menina pepinando, é a imagem que eu quero trazer pra cá: é dessa menina que quero falar.

Na verdade, não exatamente dessa menina – que hoje, acredito, deve estar um pouco desapontada por não ter conseguido guardar um doce que durasse tanto, que durasse seus quase oitenta –, mas de todas essas pessoas viciadas em prolongar o gosto ou a beleza das coisas, de todas essas pessoas que têm algum medo do fim. Como o Fábio, o homem que me contou um dia estar lendo o mesmo livro há quatro anos: quase que um parágrafo e uma pausa; uma frase e uma pausa; uma palavra e uma pausa.

Eu fiquei maravilhada com essa história e fui boba o bastante pra perguntar que livro excepcional era esse, que obrigava seu leitor a nunca deixá-lo; que o enredava indefinidamente; que negava a ele a vontade e, mais que isso, a coragem de partir. Como se a questão fosse o livro, e não o leitor. Como se a questão não fosse, na realidade e simplesmente, o fato de que existem meninas (de que existem pessoas) que guardam doces – qualquer doce – apenas para prolongar aquela existência, apenas para evitar aquele fim.

Depois me lembrei que há, entre os meus, um livro que não tenho coragem de começar a ler porque começar significaria dar a ele um tempo certo pra existir, significaria estar um pouco mais perto do fim. Chama-se “Como contar um conto”, de Gabriel García Márquez, e está comigo desde 2012. Eu tenho medo da beleza desse livro, escrito pela mesma pessoa que escreveu o conto “O afogado mais bonito do mundo” e os romances “Cem anos de solidão” e “O amor dos tempos do cólera”; tenho medo de descobrir seu incrível segredo de escritor prodigioso, num livro em que supostamente ele nos ensina como é que se deve contar contos. E, assim, fico adiando a leitura para sempre, guardando a beleza pra mais tarde, pra uma hora que não chega nunca.

De qualquer maneira, acho que cabe falar que o livro do Fábio se chama, não por acaso, “Os mil outonos de Jacob de Zoet”. Os mil outonos, que evocam as mil noites (ou as mil e uma) e que, só por isso, só por esse título, já esteja destinado a alguma eternidade. Lembro de Jorge Luis Borges falando sobre a eternidade que há em se dizer mil noites e que há, de uma maneira ainda mais bonita, em se dizer mil e uma: nessa sutileza de se acrescentar um ao infinito, um tipo de eternidade ainda mais eterna, quase infantil em sua pretensão de superar o infinito; uma eternidade que podia muito bem ter sido inventada por uma menina qualquer, que não aceitasse o tempo das coisas.

Eu sou uma menina, por exemplo, que não aceita o tempo das flores. E como a avó do Thiago, que guardava o doce pra que ele durasse mais, também eu guardo as flores – entre as páginas dos livros, em arranjos secos na minha estante, em buquês sépia espalhados pela casa, para que durem muito. Não se trata da beleza, mas da recordação da beleza. E a recordação tem a vantagem de ser incorruptível, de exceder o tempo das coisas, de as prolongar indefinidamente. Tenho certo constrangimento em admitir que, inclusive, gosto mais das flores secas – com sua existência desbotada, seus ares de memória, seu não-lugar na lógica do mundo – que das flores frescas, lindas e inúteis em sua alegria confusa e óbvia, em sua triste necessidade de agradar. Olho com imenso carinho para esses arranjos desprezados – varridos de casa, jogados no lixo, expulsos às pressas: como se fossem qualquer coisa ruim, qualquer presságio de morte (eles, que até ontem tinham a função exclusiva de nos lembrar da vida). Os meus ficam aqui, enfeitando minha casa como fotografias antigas, mais vivas que nunca, com o único propósito de lembrar: de me lembrar da noite remota em que Thiago me presenteou com rosas amarelas ou da manhã em que uma amiga atenciosa me trouxe antúrios que eu não soube cuidar.

Essas flores, as flores secas, não me exigem quase nada – a rega diária, a troca de vaso e de terra, todo esse conhecimento bonito e complexo que não tenho tempo (ou vontade) de adquirir –, apenas a delicadeza de deixá-las ficar, como uma lembrança desgastada, pequena e solitária na memória, resistindo com dignidade ao esquecimento. Como se fossem, dentro da minha casa, um outono infinito, os mil outonos de Jacob de Zoet. Como se fossem um livro que a gente não quer que acabe nunca. E afasta da pressa dos outros, da pressa do mundo, e cuida como um segredo. Que a gente consome em mil e um pedacinhos, esse número mágico, impossível, maior que o infinito – incapaz de chegar a termo. 

É que tem gente que não gosta do fim.

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