Pelé supermercado
Selko Internet superbanner
ENSAIOS

Sobre a felicidade

A vida é uma exímia dramaturga. É dela os melhores diálogos e os maiores pontos de virada da história da humanidade.

Ensaios

EnsaiosEduardo Butakka é ator, professor de Teatro formado pela UnB e comunicólogo formado pela UFMT.

23/04/2021 10h32
Por: Luciana Bonfim
Fonte: Eduardo Butakka
Imagem: Freud, Epicuro, Lady Gaga e Rita Lee
Imagem: Freud, Epicuro, Lady Gaga e Rita Lee

Esse não é um texto de autoajuda. Até porque eu não seria capaz de “autoajudar” ninguém. O máximo que eu posso tentar fazer é ajudar. Caso esteja ao meu alcance. Esse ensaio é só mais uma abstração inútil como tudo que compõe o trabalho de um artista. Inútil como a Arte em si.

O diálogo a seguir é real e recente:

“A verdade é que ninguém está bem”, disse, depois de uma breve pausa dramática durante uma conversa regada a álcool e bozó.

“É... ninguém tá bem mesmo...”. Respondeu reticente outro amigo da roda, enquanto tragava profundamente seu cigarro, como se quisesse sorver toda vida que havia em volta. Um gesto paradoxal perfeito para ilustrar aquela conversa. 

O texto acima foi escrito pela própria vida. A vida é uma exímia dramaturga. É dela os melhores diálogos e os maiores pontos de virada da história da humanidade.

Não, ninguém está bem. Aquela moça das redes sociais, do corpo perfeito, dos filhos lindos e do marido desejado. Ela não está bem.

O moço engajado dos textões também não está bem. O eleitor do Lula não está bem. O eleitor do Bolsonaro... Bem, esse claramente não está bem. E quem pensa estar bem também não está, pelo simples fato de ter escolhido se alienar do mundo a sua volta.

E onde entra a felicidade? Ah, sim. Já ia me esquecendo dela.

Para Freud, a felicidade é a tentativa do ser humano de apoiar com argumentos as suas ilusões. Pesado, não é? Também achei. Freud sendo Freud. E ele não parou por aí.

Para o pai da psicanálise, em sua obra “Mal-estar na civilização”, há três maneiras de buscar a felicidade:

Pelo Amor – A busca pela tampa da panela, para Freud, é uma dessas tentativas que encontramos para argumentar nossa busca por algo intangível. Aqui, o sentido da felicidade está muito atrelado ao da beleza, seja da forma humana ou dos gestos considerados belos. Uma declaração de amor; uma música composta em seu nome ou até, para os mais drásticos, um carro de som na porta da sua casa.

Pela Religião – Buscar a salvação espiritual seria um desses caminhos inventados pelo homem. Aqui, tudo bem se não formos felizes de fato nessa vida. Fica pra vida após a morte ou pra próxima vida. E se ao invés de felicidade, o religioso encontrar o sofrimento, tudo pode ser explicado pelos “desígnios do senhor”. Tá tudo bem.

Pela Arte (ou intelectualidade) – Segundo Freud, essa seria a maneira “mais fina e elevada” de buscar a felicidade. Essa seria a sina dos artistas ou pessoas que são tocadas pela linguagem poética por meio da obra do artista.  O jeito que o artista escolheu de se iludir.

No mesmo texto, Freud menciona um quarto grupo, mas que ele prefere não categorizar junto com os anteriores. Esse grupo seria formado por aqueles evitam o sofrimento e, por não sofrerem, acreditam ser felizes. A felicidade trilhada pela via da quietude.

Outro registro interessante sobre a felicidade eu encontrei na carta do filósofo grego Epicuro para Meneceu. Um texto muito bonito, por sinal. Para quem quiser ler, tem aqui.

Epicuro indaga Meneceu: “Na tua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que o sábio, que tem um juízo reverente acerca dos deuses, que se comporta de modo absolutamente indiferente perante a morte, que bem compreende a finalidade da natureza, que discerne que o bem supremo está nas coisas simples e fáceis de obter, e que o mal supremo ou dura pouco, ou só nos causa sofrimentos leves?”. Eu, sinceramente, não sei como Meneceu saiu dessa. Quem souber posta e me marca.  

Enquanto pensava sobre esse ensaio, deparei-me com uma entrevista de Lady Gaga em que a artista faz um desabafo sobre sua luta contra a depressão. Ela diz: “Ser feliz não é tão simples. Há alguma coisa acontecendo no meu cérebro que faz com que a dopamina e a serotonina não funcionem direito e eu não consiga chegar lá. É como se alguém falasse, ‘vamos lá, apenas seja feliz’, e eu respondo ‘vá você ser feliz, porra”. A mother monster parece estar pistola com a obrigação de ser feliz.

Na mesma semana, enquanto sofria as angústias de ter que escrever, porque sim, é um trabalho tão prazeroso quanto penoso para mim, ouvi Rita Lee. E um verso de uma de suas músicas ficou ecoando na minha cabeça: “não quero luxo, nem lixo. Meu sonho é ser imortal, meu amor”. É isso! É só isso, pensei. E ao mesmo tempo é tudo isso...

Enquanto deixo a escrita seguir o fluxo do pensamento, aceito os hiperlinks e janelas pop-up que minha memória me traz. Uma mosca faminta e desgovernada é meu pensamento. Passeia voando torto, assenta em tudo que encontra. Prova de tudo. Da Grécia Antiga ao mundo pop. Eu sou essa bagunça toda. Escrever, de certa forma é o que me ajuda a organizar as ideias. Freud explica?

Perdoem-me se fui demasiado prolixo. E se você chegou até aqui, muito obrigado. Tem alguma coisa que nos une. Talvez estejamos todos tentando apoiar com argumentos nossas ilusões. Ou talvez sonhamos ser sábios um dia, antes que a morte nos alcance. Ligeira que é. Ou ainda, talvez o que a gente quer é ser imortal...

De todo modo, ninguém está bem. Os artistas não estão bem. Eles seguem fazendo arte porque é o que escolheram fazer, muito embora essa experiência poética não seja suficiente para livrar-nos de vez das durezas da vida. Acho que escolhi mal o tema do ensaio. Deveria ter sido sobre Empatia.

Chegamos ao último parágrafo e você que veio procurando autoajuda terminou sem nenhuma dica milagrosa para sua vida. Bem, para que ninguém saia frustrado, deixarei uma só: se alguém lhe prometer a receita da felicidade ou exigir que você simplesmente seja feliz, desconsiderando toda a complexidade da sua existência, apenas responda “vá você ser feliz, porra!”.

Obs.: Tudo vai ficar bem.

Obs. 2: Não posso garantir nada. 

Nota do autor: para conversar sobre esse artigo comigo e com outras pessoas, procure o post desse artigo no meu instagram @eduardobutakka ou utilize a hashtag #ensaiossobreafelicidade

 

6comentários
500 caracteres restantes.
Seu nome
Cidade e estado
E-mail
Comentar
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Mostrar mais comentários