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QUANDO TÁ ESCURO

Amor, música e uma lâmpada queimada

Paralamas e mágoas passadas

Flávia Pires

Flávia PiresDo tempo que Plutão era planeta, uma nômade sedentária e pequenos infinitos.

15/05/2021 08h53
Por: Luciana Bonfim
Fonte: Flávia Pires
Foto: Flávia Pires
Foto: Flávia Pires

Há a lenda da música e há a nossa música que virou lenda.

Aprendi que o amor de um casal, quando muito terno e doce, toca o “etéreo”. 

O nosso voou pro campo mais elevado e duradouro dos amores nos tempos de agora que é o que perdura nas relações de amizade.

Vendo o documentário dos Paralamas, dá pra sentir que a banda se reconfigurava pra se manter unida. Tudo era feito de modo natural e orgânico, sem precisar ajustar, nem pedir. 

No amor romântico, atualizações sutis não devem se acumular. O diálogo, o respeito e a consideração surgem como um caminhão de bombeiros apagando incêndios e cortando as arestas cortantes.

E, nos parafusos ajustados das expectativas, esperanças perdidas ganham certo fôlego pra rodar pela estrada da convivência um pouco mais longe e dão o respiro necessário pro esquecimento das promessas não cumpridas, no meio de uma discussão nova em folha.

Quase em toda história a dois, existe uma lista temida de deslizes para se reclamar que só fica aparente nas tensões.

Entretanto, sempre que a lista é acionada para emergir das profundezas de toda mágoa, parte das queixas ficam flutuando até pousarem ao lado da toalha molhada na cama.

A fúria não pode ser por conta de um pedaço de pano deixado num móvel. E nunca é.

O caos instaurado pelos vinte centavos do vem pra rua de todas as queixas, nos custou uma passagem caríssima para a perda de direitos.

Parando pra admitir, se todos soubéssemos o quanto abandonar o lado esquerdo nos faria sofrer, ninguém dobraria à direita.

Aceito as pastas de dentes apertadas no meio em troca de predicados mais relevantes, no meu ponto de vista.

Sendo assim, abaixava a tampa, pendurava a toalha, sem dificuldades.

Porém, a lâmpada queimada...

Custava dizer que não ia trocar do que me enrolar e me fazer esperar?

Meu problema é a palavra! Prometeu, meu querido, sinto muito pra você!

É sobre atenção, entende?

É sobre ouvir o que o outro falou.

De um lado, alguém assiste o companheiro saber, de cor, a seleção reserva da copa de 1982. Sabe que o patrocinador do time adversário é de libra com a ascendente em escorpião.

Mas, o filho de Deus esquece, por seis meses, que a companheira implora pela luz funcionando no corredor.

Podia, eu mesma, trocar a lâmpada, sozinha? Sempre! Mas, quantas responsabilidades que não são nossas e, nós mulheres, assumimos pra não incomodar ou discutir com quem quer que seja?

Já, na banda de rock, houve sensibilidade e harmonia. Por que, depois do acidente e do luto do Hebert Vianna, o tempo pediu silêncio e som. Teve ausência, presença. Empatia pareceu ser o elo mais forte.

A máxima que diz que quando a mulher desiste de brigar é por que não tem mais jeito é, de fato, verdade.

O outro jargão comportamental é: assim que o silêncio chega, o homem estranha e passar a perguntar o que foi e deseja ouvir.

Os tempos de respostas se tornam distantes.

Troquei, eu mesma, a luz no fim do corredor.

Toco Lanterna dos Afogados e os sonhos partem em marés diferentes. Ouço as ondas das cordas na introdução da obra de arte e imagino uma tarde com o pé na areia.

A origem verdadeira da canção também serve como uma luva! Li um Jorge Amado que imprimiu a brejeirice litorânea do cheiro do mar.

Nunca mais escutei.

Era noite, sentei debaixo da luz do corredor, sozinha, grávida do Ben, ligo a familiar introdução até quando a letra começa “quando tá escuro e ninguém te ouve”. Ela é toda linda!

Na semana passada, Benício, que virava a casa do avesso pra lá e pra cá, parou, de repente, como se tivesse sido ordenado por um rádio do além. Meu filhinho vira uma estátua olhando pra mim durante a música inteirinha. Atento, sorri como se me dissesse que, também, se lembra.

Milhares de composições dos outros são nossas, hoje.

Vira e mexe, estas conversas sem pronúncia de palavra nos dizem que nenhum acorde pertenceu ao tempo passado. Todas as notas me acordam pra viver o momento de hoje.

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