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ENSAIOS

Sobre Paulo Gustavo

Paulo Gustavo era para mim, além de um ídolo, uma referência, uma representatividade

Ensaios

EnsaiosEduardo Butakka é ator, professor de Teatro formado pela UnB e comunicólogo formado pela UFMT.

18/05/2021 08h59
Por: Luciana Bonfim
Fonte: Eduardo Butakka

Impressionante a quantidade de pessoas que veio me prestar condolências pela morte de Paulo Gustavo. Foi como se, de algum modo, elas pensassem que ele e eu éramos parentes próximos. Talvez elas tivessem razão, porque foi assim que eu me senti com sua partida.

Mas não, não conheci Paulo Gustavo pessoalmente. Não o conheci melhor que ninguém que possa estar lendo este ensaio – e aqui em prol da minha autoestima tenho que me defender e dizer que chamo esta coluna de “ensaio” mais como um trocadilho do teatro do que como gênero literário.

Meu primeiro contato com o trabalho de Paulo Gustavo foi em 2007. Eu havia acabado de estrear a comédia “Segredos de Liquidificador”, quando uma amiga abastada viajou para o Rio e voltou cheia de referências na bagagem. Ela me disse “vi uma peça que você ia amar! Parece muito o estilo que você faz”. O nome da comédia: Minha mãe é uma peça.

Como não pude assistir pessoalmente ao espetáculo, contentei-me com trechos que encontrei na internet. Teatro gravado (argh!). Mas ainda assim, já era muito bom!

Depois, li e assisti entrevistas, em que ele contava que antes de se tornar um sucesso, ele peregrinava entre outros teatros, pedindo um espaço aos colegas para divulgar seu show, que estava vazio. Aquilo me aproximou ainda mais dele.

Quando fui selecionado para participar do Prêmio Multishow de Humor, eu vislumbrei a hipótese de Paulo Gustavo estar no júri ou mesmo cruzar com ele pelos estúdios. Não aconteceu. Enfim, a morte foi mais ligeira do que minha capacidade de armar esse encontro.

Paulo Gustavo era para mim, além de um ídolo, uma referência, uma representatividade. E aqui eu faço questão de explicar: humorista, gay, calvo... Sim, porque no meio artístico ainda rotulam o humorista como se fosse um subgênero do ator. Ser calvo no meio artístico também faz você perder alguns papeis... Alguns vários, eu diria. E ser gay, bem... Isso não tem cura!

Quando o curta “Quem é Vanessa?”, onde eu interpreto uma mulher, foi indicado a um prêmio internacional, fui ávido ler os comentários dos leitores na imprensa. Como esperado, muitas mensagens de apoio e de torcida. Porém, teve também alguns do tipo “É homem ou mulher isso???”, “Credo!”, nessa linha. Ali não se discutia se o vídeo era bom ou não. Se era engraçado ou não. Mas se eu era homem ou mulher.

Mas o mundo gira. O curta ganhou prêmios internacionais, virou peça de teatro e surgiu a possibilidade de transformá-lo em um longa-metragem. Marcamos a reunião com o possível diretor que se dizia interessado pelo roteiro. Eu estava muito empolgado em explicar o texto, em falar das ideias que havia tido. Até que... Bem, até que o cineasta disparou a seguinte pergunta: “mas você se importaria que uma atriz interpretasse no seu lugar ou você faz questão?”.

O mundo parou por uns instantes. Senti algo que já me era bem familiar, mas que eu, por autopreservação ou sei lá, havia deixado de sentir a algum tempo. No jargão popular, aquilo me foi “um balde de água fria”.

O que responder? Se eu dissesse que fazia questão de interpretar o texto que eu escrevi, poderia parecer pretensioso ou mesmo perder a oportunidade que estava ali na minha frente. Porém, se eu concordasse em deixar outra pessoa atuar no meu lugar, eu estaria desistindo de mim. Era a Escolha de Sofia.

Mas, eis que surge Paulo Gustavo em minha mente, para me salvar daquela cilada. Então, eu respondi: “Eu faço questão de atuar no filme. Acho que ficaria até mais interessante, porque fui eu que escrevi, eu que conheço. E outra, o púbico tá acostumado com um homem interpretando uma mulher. Não viu Minha mãe é uma peça 3? É a maior bilheteria da história do cinema nacional”. Vrá!

Obrigado, Paulo Gustavo, por me salvar. Sua existência por si só foi resistência e seguirá sendo, porque agora você é imortal.

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Nota do autor: para conversar sobre esse artigo comigo e com outras pessoas, procure o post desse artigo no meu instagram @eduardobutakka ou utilize a hashtag #ensaiossobrepaulogustavo

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