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LITERATURA

DICA DE LEITURA: Na Pele, de Luciene Carvalho

Poeta imortal conta, em poesia, as dores e as lutas de quem nasce na pele preta

Pris Mendes

Pris MendesPriscila Mendes é jornalista, feminista, socialista, sindicalista. É professora, pesquisadora, servidora pública e defensora dos mais vulneráveis. É bissexual, de sorriso largo, busca a coerência e ama o amar-elo.

18/06/2021 14h23
Por: Luciana Bonfim
Fonte: Pris Mendes

Na Pele é um livro necessário para todos nós, como brasileiros, como mato-grossenses, como leitores. Como brasileiros, porque precisamos compreender e combater o racismo, seja por sermos vítimas, seja por reproduzi-lo, seja por nos beneficiarmos com essa opressão.

Necessário para nós, mato-grossenses, por ter sido escrito por Luciene Carvalho, nascida em Corumbá de um Mato Grosso uno e radicada – e defensora – no Porto cuiabano. Uma mulher preta e periférica reconhecida imortal pela Academia Mato-grossense de Letras, cuja produção literária enaltece toda sua integridade: mulher, preta e periférica.

Fundamental para nós, leitores, porque o livro Na Pele é poesia na mais completa concepção da palavra – muito além de métricas e rimas: é verdade, profundidade, reverbera na alma.

Eu corri atrás do livro logo quando foi lançado. Eu já sabia do projeto de Luciene de escrever sobre algo tão profundo, que é viver sob a pele preta em um país que se nega racista, que mantém opressões, “protegido” pelo argumento da miscigenação, que violenta de forma diferente a pessoa negra por ser menos ou mais preta.

Mas me arrepiei e chorei quando li as primeiras páginas. Corta a alma, convoca-nos para a desconstrução de nós mesmos, reconhece a luta histórica dos afro-brasileiros e mostra que este povo aguerrido sabe que é descendente de reis e rainhas e está conquistando o lugar que sempre lhe foi de direito.

Assim me tocou e eu não sou negra, ao contrário, sou lida como branca em nossa cultura: apesar de longe de padrões estéticos, sei bem que usufruí de privilégios sociais, mesmo sem pedir por eles. É desse lugar que aqui escrevo, o lugar de aprendiz, a que diz ‘pode contar comigo na luta’ e ‘me desculpa se fiz algo de errado’ nesta sociedade erguida tendo o racismo como um dos pilares.

Luciene, de quem sou publicamente fã, comentou comigo antes do lançamento do livro algo como: ‘o racismo faz isso com a gente, nasci preta, morrerei preta, já escrevi sobre tudo que me compõe e não tinha me atentando para a urgência de dar voz a algo que vem antes de mim, porque a gente é ensinada a não falar sobre isso, a naturalizar a violência da qual é vítima’.

Que bom, Luciene, que você gritou. Convocada pela urgência da vida – em meio a uma pandemia – sua voz ecoa. E que cada pessoa negra utilize das próprias ferramentas para dizer: “parem de nos matar”.

O livro Na Pele foi lindamente lançado em uma edição especial do programa de TV Arte e Cultura Mato Grosso, produzido pela Assembleia Social e pelo Teatro do Cerrado Zulmira Canavarros – dos quais estou, orgulhosamente, assessora de imprensa – em parceria com a TVAL e com a Associação de Compositores, Músicos e Produtores de Mato Grosso (ACMP). Para quem quiser assistir, está disponível no canal da TVAL no Youtube.

Lá tem gente preta-artista-mato-grossense brilhando no palco, conduzindo, recebendo, se apresentando, honrando, fazendo poesia. Corre lá!

Quer sentir um gostinho do livro? Logo abaixo vou transcrever um dos poemas. Quer ter seu próprio livro? Tem no site da editora Carlini e Caniato ou você pode comprar diretamente pelo telefone (65) 9 9635-3486. 

SORTE – Luciene Carvalho

E a minha amiga disse:

“Você tem sorte!

Com essa cor,

nem demonstra

a idade que tem!!!”.

Agradeço.

Afinal, tenho sorte;

por toda parte,

o não estampar a idade

me traz benefícios.

Os melhores ofícios

são reservados pra mim.

Sempre foi assim!

“Não, não,

esta vaga será dela,

pois ela

não terá rugas precoces.”

Ou

“Imagina!

Esta menina

terá a pele mais lisa.

Precisa ser escolhida

para essa promoção…”.

Sei que minha amiga

está lotada

de boa intenção,

todavia ela não sabe nada

do complexo sistema

que coloca cada

vida num lugar:

entre a honestidade aberta

e a condescendência,

não estou certa

sobre qual fere mais

minha existência.

Olho pra amiga

de longa data

que não sabe

o universo

que minha pele delata.

Ela nunca me viu?!!!

Suspiro, certa do incompreensível,

e digo pra amiga:

“Bobagem, é Renew”.

 

15/06/2020 – Outono – Lua Minguante 

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