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FRENTE FRIA

Descaso e crueldade animal em noites de frio

Voluntárias improvisam casinhas para proteger cães de rua. Enquanto isso, nos quintais das casas cachorros quase morrem de frio

Cacá Barros

Cacá BarrosCacá Barros é jornalista e reikiana, empenhada em fazer a diferença. Chegou em Mato Grosso em 1985, quando ficou conhecida por suas reportagens em tribos indígenas, no Pantanal e Chapada dos Guimarães. Editou a primeira revista sobre ecoturismo em Mato Grosso (Eco Tour News). Especializou-se em comunicação institucional, assessoria de imprensa, edição, roteiros, documentários, revistas, gestão pública em comunicação, marketing eleitoral, marketing empresarial, elaboração e divulgação de projetos

03/07/2021 10h11Atualizado há 1 mês
Por: Cacá Barros
Fonte: Cacá Barros

CCom a chegada da frente fria em Chapada dos Guimarães, as voluntárias do grupo SOS Cães e Gatos se apressaram em produzir casinhas com caixas de papelão, forradas com plástico e cobertores para tentar amenizar o frio dos animais abandonados nas ruas. Uma das protetoras deu um belo exemplo, colocando na frente da sua casa, uma casinha caprichosamente produzida com uma caixa d`água. Mas enquanto trabalhavam para aquecer os cachorros nas ruas, nos quintais eles sofriam os efeitos congelantes da queda de temperatura, sem proteção ou abrigo, muitas vezes acorrentados, hábito ainda muito cultivado nessa região. 

Para distribuir as casinhas, as voluntárias do SOS Cães e Gatos percorreram as ruas durante as noites congelantes de Chapada dos Guimarães, que ganhou manchete nacional pelas baixas temperaturas. Nenhum cachorro ou gato foi encontrado. Eles se enfiam em buracos e se protegem em locais inusitados.

O mesmo não acontece com os cães domésticos que são acorrentados ou condenados ao relento. Principalmente nas cidades do interior como Chapada, faz parte da tradição e cultura, criar os animais na rua, arriscando a serem atropelados, ou amarrar no quintal. Faça chuva ou sol, é quase natural manter os animais sem proteção. Por isso, algumas casas improvisadas pelas voluntárias foram doadas para residências de pessoas que criam seus pets sem abrigo.   

Os cães de rua, que as vezes aquecem e são aquecidos por um humano de rua, ou estão livres para procurar proteção do frio, acabam tendo mais chances de sobreviver ao frio, do que aqueles que vivem acorrentados e sem abrigo nos quintais. Por isso, todo o esforço dos voluntários não é suficiente para nos poupar de cenas como a que circula na internet, mostrando um cãozinho morto, congelado e amarrado no quintal de casa. Uma cena chocante, que vem sendo utilizada para conscientizar e tentar sensibilizar as pessoas. É óbvio que, se você sente frio, seu cão e gato também sentem.

 É de cortar o coração, é revoltante a ignorância e crueldade das pessoas. As leis não protegem os animais da indiferença dos que criam seus bichinhos acorrentados, sem abrigo e sem chances de procurar proteção nas noites de inverno. O poder público normalmente ignora a situação de abandono e a crueldade animal, mesmo sendo uma questão de saúde pública, na medida em que podem transmitir doenças como leishmaniose.   

Assim como em Chapada dos Guimarães, faltam políticas públicas para proteger os animais na maioria dos municípios do país. A história se repete, no primeiro ano de gestão, normalmente a causa animal não recebe atenção porque os prefeitos anteriores não deixaram orçamento. Nos anos seguintes, não há vontade política para lembrar promessas de campanha.

 Em Chapada dos Guimarães, nos últimos anos, a cada eleição os candidatos a prefeito assumem o compromisso de amparar os animais de rua. Após eleitos, esquecem a promessa sem o menor pudor. Mesmo assim, a cada nova gestão, os ativistas da causa animal da cidade têm a esperança renovada para pressionar e buscar apoio, tanto do Executivo quanto do Legislativo.    

  Conforme o IBGE, o Brasil tem 28,8 milhões de domicílios com pelo menos um cachorro e mais de 115 milhões com algum gato.  Com a pandemia, aumentou o abandono e as denúncias de maus tratos contra animais. Em São Paulo, por exemplo, de janeiro a julho de 2020, cresceu em 81,5% o número de denúncias, em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Em municípios como Chapada dos Guimarães, onde não existe cadastro, controle nem acolhimento, não é possível quantificar, mas o número de animais abandonados é visível para os protetores, que a cada dia detectam um novo cão perambulado nas ruas.

Para punir maus tratos contra cães e gatos, a Lei 14.064/20, conhecida como lei Sansão em homenagem ao pitbul que teve as patas traseiras decepadas por um homem em Confins/MG, alterou a lei 9.605/98, aumentando a pena para 2 a 5 anos de reclusão, multa e proibição de guarda.

Por todo lugar, existem casos de crueldade contra os animais, mas felizmente também existem pessoas que se unem para proteger, resgatar, construir “Cãodomínio”, se cotizar para prestar atendimento médico, pressionar e propor projetos para o poder público.  A sociedade se organiza e cresce cada vez mais o número de jovens protetores na internet. Todos tentando compensar o vazio, omissão, descaso e indiferença dos gestores públicos.

Sem poder falar, se manifestar, denunciar maus tratos e abandono, o destino desses animais indefesos está nas mãos de voluntários e organizações sociais. São protetores que precisam ser aguerridos, dedicados e dispostos a lutar pela causa animal.

À eles, e aos raros gestores municipais compromissados com o acolhimento, meu respeito, admiração e gratidão.

 

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