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ENSAIOS

Sobre o Nada

O Nada que compõe o nosso todo. Você, assim como eu, é Celeste também

Ensaios

EnsaiosEduardo Butakka é ator, professor de Teatro formado pela UnB e comunicólogo formado pela UFMT.

07/07/2021 08h48
Por: Luciana Bonfim
Fonte: Eduardo Butakka

Essa coluna hoje quer escrever sobre nada. Sobre “o Nada”. Mas já advirto: se você veio em busca de correntes científicas e filosóficas que discorram sobre as diversas teorias do Nada, aqui você não vai encontrar. Aqui, você só vai encontrar o Nada mesmo. Sem nenhum embasamento a não ser o da própria alma. 

Entretanto, quem vai guiar minha escrita é Celeste. Já apresento: Celeste é uma personagem, protagonista do curta homônimo em que escrevi e atuei e que, por conta dela, ganhei a prata em um festival para atores em Nova York. Mas isso não é tão importante nesse momento. Aliás, nada é importante nesse ensaio. 

Celeste é uma artista cross dresser que anima festas, boates e casas de show. Porém, com a pandemia da Covid-19, ela precisou se afastar dos palcos e se adaptar às famigeradas LIVES. 

Prestes a iniciar seu show ao vivo, ela se indaga “por que eu ainda insisto em fazer o que eu faço?”. Seu pensamento é um cometa em rota de colisão. Celeste desaba: “para que serve a Arte? Para nada”. 

Enquanto espera por sua estimada audiência que nunca chega, Celeste divaga sobre sua existência. Afinal, por que fazemos o que fazemos? Por que o artista faz o que faz? 

Pausa para um devaneio ilustrativo. 

Certa vez, um primo meu rompeu um relacionamento e estava sofrendo os estágios do luto do seu término amoroso. Eis que ele dispara “preciso arrumar outra namorada o mais rápido possível!”. Eu, então, o questionei “por quê?”. Ele “pra eu não ficar sozinho, ué!”. O que parecia tão óbvio escondia uma realidade cruel, o fato de que não suportamos a nossa própria companhia. 

Celeste não suporta mais ficar consigo mesma, trancada em casa, dependendo da audiência das pessoas para sobreviver ou para dar algum sentido à sua existência.

Celeste é apenas uma partícula do Universo. Uma poeira cósmica. O Nada que compõe o nosso todo. Você, assim como eu, é Celeste também. 

Enquanto esperamos Godot, oscilamos entre as distrações que entorpecem nossas amarguras e o confronto com o traço vazio da existência humana. 

Permitam-me encerrar não com uma frase minha, mas de Celeste: “e ai de quem ousa ser o que se quer ser. Ai de quem ousa ser!”. 

Nota do autor: para conversar sobre esse artigo comigo e com outras pessoas, procure o post desse artigo no meu instagram @eduardobutakka ou utilize a hashtag #ensaiossobreonada

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