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PARQUE NACIONAL

Parque Nacional de Chapada dos Guimarães: 32 anos

Do apelo pela criação ao abandono

Turismo em Mato Grosso

Turismo em Mato GrossoA coluna Turismo em Mato Grosso é formada por profissionais do turismo de Mato Grosso integrantes da Associação de Guias e Condutores de Ecoturismo (AGCE). O intuito da coluna é fomentar o turismo em Mato Grosso com assuntos relevantes ao setor, apresentar os principais atrativos do estado, contextualizar os problemas ambientais da região e discutir políticas públicas voltadas ao turismo regional.

08/07/2021 07h54Atualizado há 3 semanas
Por: Luciana Bonfim
Fonte: AGCE-Chapada dos Guimarães MT
Foto: Domingos Pires
Foto: Domingos Pires

O Parque Nacional de Chapada dos Guimarães foi fundado em 12 de abril de 1989 fruto de um forte apelo da sociedade preocupada com a conservação do que é um dos mais belos cenários do país. Já naquela época, o agronegócio expandia agressivamente suas fronteiras, transformando Cerrados e Florestas em áreas cultiváveis de larga escala. Novas fazendas eram formadas e sumiam no horizonte, muitas vezes sem deixar uma única árvore em pé. Ambientalistas, artistas e a comunidade local na época começaram um grande e intenso movimento de sensibilização para a proteção da nossa região que culminou com a criação do Parque Nacional da Chapada dos Guimaraes 32 anos atrás. Foi uma grande vitória mesmo a área do parque sendo bem menor do que o planejado.

O Parque Nacional é regido pelo ICMBIO (Instituto Chico Mendes de Proteção da Biodiversidade), uma autarquia do Ministério do Meio Ambiente. Desde a sua criação muito se evoluiu na consolidação enquanto área protegida pelo governo brasileiro, principalmente no quesito de regularização fundiária (desapropriação das terras pelo governo), combate ao desmatamento, grilagem e incêndios florestais.

Além da pesquisa científica, o turismo é uma das poucas atividades permitidas no Parque Nacional e é sem dúvida a que mais atrai recursos para a região, gerando emprego e renda no município. O turismo de natureza (ecoturismo) engloba uma extensa cadeia produtiva envolvendo guias de turismo, condutores, agências, operadoras, transportadores, hospedagens, restaurantes, comércio local. Isso para citar apenas alguns dos segmentos mais diretamente beneficiados.

 Contudo a visitação do Parque e todos os possíveis benefícios advindos dela, tem esbarrado em muitos problemas de infraestrutura básica.

Voltando cerca de uma década no tempo, com o advento da candidatura do Brasil para sediar a Copa do Mundo de Futebol, o Governo federal propagandeou que havia o projeto Parques da Copa, onde haveria uma estruturação dos parques nacionais próximos às 12 cidades sedes do jogo se o Brasil sediasse a Copa de 2014. Uma vez que o Brasil foi o pais escolhido e Cuiabá elegeu-se uma das cidades sede, o Governo do Estado de Mato Grosso contratou uma consultoria a altos custos para realizar os estudos e planejar as obras dentro do Parque Nacional e no seu entorno. No Parque Nacional as obras previam entre outras coisas um belo centro de visitantes, passarelas, mirantes, entre outros equipamentos. A primeira intervenção seria substituir a atual portaria do parque que apesar de singela, dava conta do recado, por uma nova e grande seguindo os “padrões FIFA de qualidade”.

O Governo do Estado de Mato Grosso demoliu a anterior e começou a construir uma nova e simplesmente abandonou a obra de forma inacabada no mais visitado ponto turístico de Mato Grosso, cerca de 180.000 pessoas passam por lá por ano e se deparam com escombros. Uma vergonha sem tamanho! Não só para quem trabalha com turismo mas para todos os mato-grossenses. Vale lembrar que no nosso estado, muitas obras foram marcadas por terríveis escândalos de corrupção, atrasos e improvisos. Um tiro no pé de quem prometia promover o nosso destino. Fora isso, os acessos à pontos turísticos importantes do Parque como a Cachoeirinha, Circuito de Cachoeiras, Cidade de Pedra e Vale do Rio Claro, são há muito tempo precários, com estradas mal cuidadas, atoleiros e sinalização ruim.

Como o governo federal não dispõe de Guardas Parques, nem monitores, o funcionamento mínimo desses atrativos depende de voluntários. Poucos anos atrás, guias, condutores e cidadãos mantiveram durante várias semanas o parque aberto, graças à uma grande campanha alternando voluntários na portaria, pois o parque ficou sem nenhum vigia, beirava o inacreditável.

Um dos seus principais atrativos, o Circuito de Cachoeiras, atualmente ainda não reabriu para visitação. Esteve aberto entre 2009 e 2020 para visitação, desde que acompanhado por guia ou condutor. Tudo começou em 2009, como não haviam monitores, os guias batalharam junto aos gestores para que pelo menos grupos guiados pudessem entrar e o que era para ser um plano emergencial perdurou até o ano passado. Muitos pensam que os trabalhadores é que exigiram a presença de um guia ou condutor, mas a verdade é que eles pediram que “pelo menos grupos guiados pudessem entrar” o que é bem diferente, pois os guias acabam fazendo o papel de sensibilizar e educar os visitantes e salvaguardar o parque.

A atual gestão da visitação do parque agora, diz que só abrirá o circuito se for de forma autoguiada e quando tiver condições de fazer sem a obrigatoriedade do guia. O plano soaria muito bem para a maioria dos cidadãos, uma verdadeira e importante redemocratização do parque.  Porém não há recursos, nem pessoal para fazer isso de forma sustentável, e nem mesmo grupos guiados podem visitar e toda a cidade perde um dia a mais de visitação de cada visitante.

Outra reivindicação por parte do trade turístico, que não ressoa na administração do Parque Nacional, é a possibilidade de estender a visitação do Véu de Noiva e da Cidade de Pedras até o pôr do sol. Ambos lugares tem uma beleza incrível que é acentuada nesse momento tão especial do dia, onde a cores avermelhadas dos paredões ficam mais bonitas e recebem com frequência a passagem de araras vermelhas para pernoitar. Uma contemplação com alto poder de sensibilização das pessoas, mas que não pode acontecer devido ao horários de visitação estipulada pelos gestores do ICMBio, que é das 9h às 16h. Mais uma importante perda que nos parece que com um pouco mais de boa vontade poderia ser resolvido.

Considerando a falta de recursos do Parque Nacional e levando em consideração que vários atrativos, apesar de estarem numa reserva federal, se encontram no município de Chapada dos Guimarães. É difícil entender por que a Prefeitura Municipal não abraça o Parque nem que seja na manutenção das estradas de terra dentro deste? Já que possui todo o maquinário e pessoal, e recebe impostos advindos da visitação desses lugares.

Chapada dos Guimarães precisa ter mais orgulho de ter em seu território um dos parques nacionais mais lindos do mundo!

Com o aumento da vacinação no nosso país o turismo interno finalmente está sendo retomado à passos largos. Mas precisa de esforços urgentes dos representantes das esferas federal, estadual e municipal para que possamos minimamente arrumar a casa.

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