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TUDO É POLÍTICA

O Bolsonarismo da classe operária

Aviso: senta que lá vem textão. Mas o motivo merece

Filosofia do Mato

Filosofia do MatoAlianna Cardoso é mãe, advogada e pesquisadora. Mestra e doutoranda em filosofia, mestranda em direito

10/07/2021 10h59
Por: Luciana Bonfim
Fonte: Alianna Cardoso

“Tô” sumida, bom, pelo menos dessa coluna aqui sim. É que a vida, com sua correria, embrulha (como dizia Guimarães Rosa) a gente num papel que não é de presente, é de passado e futuro. A gente fica esmagado  pela política, pela economia, pelo sistema e tem que escolher as guerras que vai lutar senão não dá conta, e como viver empreende sistematicamente pagar boletos, a gente tende a escolher as lutas que mesmo que terminem com nocaute à nosso tempo, rendam o sustento suficiente pra pagar o gás que não para de aumentar, a energia que vai privatizar, o aluguel que não para de subir, a água que fica cada vez mais escassa (aliás aqui em nossas terras de cerrado, as queimadas já anunciam que vem gasto com umidificador e ar-condicionado para o próximo calendário de queimadas. Sim, porque já temos até anotado na agenda: de julho à outubro (com sorte)).

Pois bem, eu estive imersa no labor (que gosto muito, a propósito). E defendi recentemente a dissertação de meu segundo mestrado (agora em direito. A coluna poderia passar a chamar "filosofia jurídica do mato", mas acho que esteticamente e por razões de afinidade teórica, mantemos como está).

A questão é que nesse meio-longo-tempo, andei engasgada com uma coisa aqui e outra acolá e alguns textos foram digeridos pelo estômago, enquanto outros pararam feito pedra na garganta e hoje quero tentar fazer escapar.

Andei reparando essa sociedade brasileira dos 530.000 mortos pela covid (mortes evitáveis, diga-se de passagem (de novo)) e a forma como os defensores do governo mostram o que Freud chamaria de projeção. Um causo acontecido na minha vida me provocou a ideia de que uma característica marcante do bolsonarismo é a projeção. 

Isso porque diante de nossas lutas diárias de classe operária (sim gente,  se você é trabalhador assalariado,  é classe operária e tem que admitir e usar isso a seu favor. Ter um COROLLA e uma casa financiada não é ser rico. Mesmo que num país com tanta desigualdade e injustiça social como o Brasil pareça que você está "acima da carne seca",  a verdade é que você também é explorado por alguém assim como explora a empregada doméstica que tem condições de pagar e quer que ela trabalhe de segunda a sábado limpando sua sujeira. E olha, o episódio com a tal Adriana nos EUA (dá um google) mostra como somos escravistas.), somos engolidos pela projeção de nosso próprio clã. Erroneamente, penso eu, aquele funk da Waleska popozuda que manda dar o beijinho no ombro e fala do recalque (conceito Freudiano), está se referindo na verdade à projeção. É a projeção que faz com que o indivíduo que não consiga se posicionar nesse Estado de coisas inconstitucionais, tente prejudicar quem de alguma forma (não isenta de dor) vem construindo algum caminho diverso. E se Você achou estranho trazer a discussão pro plano político, eu tenho uma coisa pra te contar: TUDO É POLÍTICO!

Eu poderia citar Nietzsche quando menciona o forte e fraco e virá vindicar que filosoficamente temos uma inversão da ideia de força e assumimos uma decadente ideologia do existir, romantizando o sofrimento e valorizando conquistas que se direcionam à uma vitória capital (bem, aqui sou eu falando dele. Interpretando-o na verdade).

Mas prefiro ir para outro ponto: os mecanismos de defesa Freudianos (Ei psicanalistas, venham compor comigo). 

 Através dos Mecanismo de defesa, que têm por finalidade reduzir qualquer manifestação que pode colocar em perigo a integridade do ego, onde o indivíduo não consiga lidar com situações que por algum motivo considere ameaçadoras, ele reage.  São processos subconscientes ou mesmo inconscientes que permitem à mente encontrar uma solução para conflitos não resolvidos no nível da consciência. As bases dos mecanismos de defesa são as angústias. Quanto mais angustiados estivermos, mais fortes os mecanismos de defesa ficam ativados.

E você pode me perguntar o que os mecanismos de defesa e a projeção tem a ver com a inveja e governo. Eu me explico:

A título de exemplo, era pra estarmos todos numa luta uníssona pra conquistar um isolamento social coerente com o momento em que estamos vivendo para que de fato pudéssemos nos proteger da pandemia e fazer com que ela fosse controlada mais rapidamente. Ao invés disso estamos enfrentando dois problemas: o sistema opressor e os operários que defendem esse sistema.

A meu ver isso é reflexo da projeção. Ou seja, pela angústia de não conseguir força pra enfrentar as amarras sistematizadas pelas instituições governamentais, reage-se, prejudicando e culpabilizando quem o faz. Pra mim, o bolsonarismo da classe operária é no cerne da questão, a inveja e a projeção.

E eu vivi na pele isso recentemente ao ter sido denunciada anonimamente por alguém que me acusou de "estar usufruindo de afastamento por problemas de saúde (mental, vejam bem) enquanto fazia lives sobre depressão e maternidade e usando o dinheiro do Estado para fazer mestrados e doutorados (que fiz todos em universidades públicas com aprovação e bolsa em um deles (passei em primeiro lugar no mestrado em direito e no doutorado em filosofia)" paradoxal não?

Desde então venho refletindo (sem querer saber quem é porque não importa) como a projeção (e a inveja) constroem toda a nossa cultura ocidental e como isso tem reflexo no nosso sistema de governança.

Freud formulou uma teoria que pode nos auxiliar nessa questão. Para ele seríamos regidos por um princípio do prazer que digladia com o princípio da realidade. Com isso o nosso aparato psíquico trabalharia sempre buscando diminuir a tensão e evitar o desprazer, porém, na medida em que o crescemos percebemos que o mundo é hostil e que não podemos ter prazer sempre na hora que quiser. Com isso, desenvolveríamos um princípio de realidade, onde aprenderíamos a suportar a dor e adiar a gratificação.

Com isso, ao vermos outras pessoas escolhendo o prazer (no meu caso específico o tal afastamento pra tratamento de saúde mental) — e não a realidade (que seria se expor na repartição pública no meio da pandemia, com bebê , sem rede de apoio e numa depressão pós-parto remota)— , isto causa raiva e indignação àquele controlado pelos mecanismos de defesa que Freud esclarece, dentre eles a projeção que eu menciono aqui. É como se meu denunciante anônimo pensasse “porra, eu tô aqui me privando do meu prazer a contragosto, porque o mundo me exige isso, e vem essazinha e joga na minha cara o quanto ela pode fazer o que quiser? ah, tem mais é que sofrer mesmo. Vou prejudicá-la”.

E aí dedicou um tempo de sua vida, tomado pela projeção, descontrolado pela inveja, e escreveu uma denúncia ao Estado. Me prejudicou? Pode ser que sim. Mas também mostrou pra mim um tema vasto que vai virar pesquisa: COMO NOSSA SOCIEDADE SE TORNOU A SOCIEDADE DA PROJEÇÃO E DA INVEJA E COMO ISSO AFETA TODOS OS SETORES DA NOSSA VIDA SOCIAL, INCLUSIVE (principalmente) NA PANDEMIA.

Me lembrei do tal "só vai trabalhar fora de casa quem for serviço essencial" enquanto ainda pensávamos em Lockdown e como haviam discussões ridículas sobre ser essencial.  Porque a palavra essencial vinha como um sentimento de desimportância ao ouvinte operário que entendia estar sendo deixado de lado e não protegido da exposição ao vírus como era a intenção (deixo as discussões sobre a intervenção do Estado nos recursos para o lockdown para outro texto. E na verdade já falei um pouco aqui disso)

Lembro-me também da vacinação. Diante dos estapafúrdios critérios de vacina, ao invés de lutarmos para uma justa e coerente cientificamente disposição vacinal por faixa etária e tudo mais, os grupos de operários estão digladiando para retirar uns e incluir outros. Não se pensa coletivamente. Novamente a projeção e a inveja (não quero que ele tenha, se eu não posso ter). Sem mencionar o que a Ludmila, ex-coordenadora do Plano Nacional de Imunização mencionou em seu depoimento na CPI: A INTERFERÊNCIA DE GRUPOS EMPRESARIAIS NO PLANO DE VACINAÇÃO.

Então, enquanto o Princípio do Prazer busca a manutenção de um baixo nível de consumo de “energia” para restabelecer um sistema em desordem ou pressurizado devido ao acúmulo de excitação, o Princípio da Realidade buscaria a mesma coisa, porém não mais será uma energia em favor a qualquer realização de desejo e pulsão, mas sim estará a dispor de uma energia vinculada a um caminho específico e em acordo com o os limites sociais, que podem ser usados para a destruição da ameaça, por exemplo.

Utilizando aqui Laplanche & Pontalis, temos a seguinte definição de Projeção:

Projeção: Termo utilizado num sentido genérico em neurofisiologia e em psicologia para designar a operação pela qual um fato neurológico ou psicológico, é deslocado e localizado no exterior, quer passando do centro para a periferia, quer do sujeito para o objeto. Este sentido compreende acepções bastante diferentes. No sentido propriamente psicanalítico, operação pela qual o indivíduo expulsa de si e localiza no outro, pessoa ou coisa, qualidades/sentimentos/desejos e mesmo “objetos”, que ele desdenha ou recusa em si.

Como não há definição do termo Inveja em Laplanche & Pontalis e nem em Freud, recorro ao dicionário para termos uma definição do termo:

Inveja: Misto de desgosto e ódio provocado pelo sucesso ou pelas posses de outrem. Desejo intenso de possuir os bens de alguém ou de usufruir sua felicidade.

É como disse acima, quando o indivíduo percebe, no conflito do Princípio do Prazer com o Princípio da Realidade, a impossibilidade de corresponder aos dois devido ao paradoxo que existe entre os dois princípios, ele sofre. sofre por não poder ter em toda a sua completude o seu prazer e ao mesmo tempo corresponder às demandas da sociedade.

no momento então que este indivíduo — que pode ser qualquer um de nós— entra em contato com o outro e percebe que este, de certa forma, burlou o Princípio de Realidade e está teoricamente obtendo prazer com aquilo, ele se revolta. É como um pensamento automático que passa pela cabeça do sujeito e diz “Ei, por que ele pode ter prazer indo contra a sociedade, enquanto eu estou aqui “seguindo as regras” e sofrendo por conta disso?”. percebe-se claramente um sentimento de inveja neste comportamento, tal qual o verbete visto acima.

É uma paranoia de combater o outro e não as regras do sistema que na verdade é o causador da dor. E voltando ao meu causo, sei que tendo sido uma atitude anônima, não posso aferir que a denúncia tenha vindo de um Bolsonarista. Porém vocês devem se lembrar das discussões do Paulo Guedes quando ele mencionou que antes até empregada doméstica poderia ir pra Disney, o que pra ele era um absurdo e que agora só a elite pode. (Ora, vejam bem, então, o normal nessa sociedade branca, hétero, misógina e elitista, é que a sigla VIP (VERY IMPORTANT PERSON) seja destinada ao burguês. Lembro ainda de outros episódios como uma situação trazida à público antes da pandemia de alguém criticando um sujeito no aeroporto de bermuda e chinelo e tendo a audácia de viajar no mesmo avião que a senhora de Louis Vitton. (Só dar um google que aparece).....eu poderia ainda mencionar a crítica à Universidade Pública chamada de antro de balbúrdia no que antes era o alcance da população pobre e preta ao ensino superior através do ENEM. Ou ainda poderia discutir a mais recente intervenção do governo em que o Presidente da República, Jair Bolsonaro, vetou totalmente o projeto de lei (PL 3.477/2020) que buscava garantir acesso à internet, com fins educacionais, a alunos e professores da educação básica pública. (Fonte: Agência Senado. Https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/03/19/vetado-projeto-que-dava-acesso-a-internet-a-alunos-e-professores-da-rede-publica)

A questão desse texto é como a inveja e a projeção colocam o Bolsonarismo em ascensão porque impede que a classe trabalhadora sai de seu local secundário social. E em suma, o que queria apontar é que estamos lutando contra o inimigo errado. Digladiando com outros operários; digladiando com outros na fila de vacinação (porque vacinar presidiários se eu que sou cidadão de bem não vou me vacinar ainda?), digladiando como marionetes e retroalimentando esse sistema que opera justamente na nossa dor. É como disse Marilena Chauí “Bolsonaro quer ser soberano “imorrível”, com terra e leis sob sua tutela. Não sendo monarca, opera com cinismo e violência. Seus seguidores expressam um Brasil privatista e hierarquizado – que elimina o outro quando não pode cooptá-lo.” É ou não é fruto de projeção alimentada pela inveja da própria classe operária que ainda defende esse governo?

Eu me refiro à inveja de operário contra operário, estabelecendo pela projeção ódio ao que se constroi como espaço de fuga das amarras do sistema. Ou no meu causo, é evidente que é incabível retorno às atividades durante a pandemia e se eu necessitei de um atestado em razões de saúde mental, talvez as tais lives sobre depressão estivessem sendo minha fuga e forma de continuar a existir. Ao invés de uma denúncia individualizada contra essa operária que vos fala, precisássemos de uma greve coletiva para que todos pudessem permanecer seguros e exercendo seu labor em situação de teletrabalho ao invés de compartilhar vírus em uma repartição pública. Mas na visão distorcida da projeção e da inveja, um atestado é prazer que afronta o desprazer do sujeito que não tem coragem de fazê-lo, porque bem, de saúde mental ninguém consciente tá legal nesse momento.

Mas é que de fato, uma otimização das formas de lidar com a opressão do governo demandaria consciência de classe. Lembra que mencionei que ter carro e casa financiada não torna ninguém rico? Então... Não torna mesmo. É como indica Wendy Brown em “Nas ruínas do neoliberalismo” precisamos “compreender como essa criação veio a ser requer o exame das falhas e oclusões iminentes dos princípios e politicas neoliberais, bem como sua mescla com outros poderes e forças, tais como racismo, niilismo, fatalismo e ressentimento”. Sobre niilismo, que é meu tema de dissertação do mestrado em direito, junto ao fatalismo, prometo escrever depois. Mas o ponto aqui é que o que ela chama de ressentimento (partindo de uma filosofia Nietzschiana) pode muito bem administrada como o que estou chamando aqui de projeção e inveja. De novo, o operário bolsonarista é movido na essência por inveja e projeção.

De fato, essa vida que embrulha tudo é que merece ser digladiada. É esse sistema que nos obriga a fazer de nosso corpo ferramenta exclusiva de trabalho que demanda a destruição . É essa forma de capitalização do nosso tempo que causa dor.

Não eu na minha sofrência de mãe/pesquisadora/docente/operária que pegou atestado por causa de uma depressão e sobreviveu por algumas semanas falando disso em lives via instagram (de graça) pra se sentir menos só. Ou não aqueles que estão como cada um de nós está sofrendo as mazelas do péssimo trabalho do Plano Nacional de Imunização (e nem vou falar da corrupção).

Essa sociedade da projeção que projeta no outro sua dor e dele se vinga condena não porque acha errado, mas sim porque quer estar no mesmo lugar. Enquanto assim for, e será, o Bolsonarismo não cairá porque é mais que um sujeito em frente a um governo que usa palavras de baixo calão e odeia o pobre e o cabelo “casa de rato". É um movimento invejoso e projetado. 

Referências

Brown, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo / Wendy Brown

traduzido por Mario A. Marino, Eduardo Altheman C.

Santos. - São Paulo : Editora Filosófica Politeia, 2019, 256 p.

Inclui bibliografia e índice, ISBN 978-85-94444-07-3

CHAUÍ, Marilena. O autoritarismo social, segundo Marilena Chaui. Publicado 08/06/2021 às 20:02. Por A TERRA É REDONDA. Disponível em  https://outraspalavras.net/outrasmidias/o-autoritarismo-social-segundo-marilena-chaui/. Acessado em 10.07.2021

LAPLANCHE, J.; PONTALIS (1982) Vocabulário de Psicanálise. Trad. Pedro Tamem. São Paulo: Martins Fontes, 1991

Shepard Simon. "Basic Psychological Mechanisms: Neurosis and Projection". The Heretical Press. Acessado em 7 de Julho, 2021.

Wade, Tavris “Psychology” Sixth Edition Prentice Hall 2000 ISBN 0-321-04931-4

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