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Achados e perdidos

“Achados e perdidos”, esse é um tema que sempre quis desenvolver, expor.

Adoro cada palavra: “achados e perdidos”

Pinguela

PinguelaLorenzo Falcão é jornalista, escritor e poeta. Acumula longa experiência tendo passado pelos principais veículos de comunicação de Cuiabá. Desde 2010 é redator do site www.tyrannusmelancholicus.com.br , com foco em temas culturais. Já lançou seis livros, sendo o último, “Abobrinha”, de onde saíram os poemas que ilustram este texto

27/07/2021 08h45
Por: Luciana Bonfim
Fonte: Lorenzo Falcão e Fátima Sonoda (in memoriam)

Achados

 Guardados, escondidos, perdidos e achados retomam à sua história, na maioria das vezes abruptamente interrompida. Reassumem o papel de protagonistas, mesmo que momentaneamente, resgatam sua importância, recuperam o seu tempo. Amarelos, amassados, dobrados e redobrados, rasgados, recortados, marcados... assim ficam depois de deixados nos fundos de gavetas, entre as páginas de um livro, debaixo de pilhas de lençóis e toalhas, em bolsos de calças e paletós, em bules e açucareiros de porcelana, quando ainda existiam.

O exílio é imposto. Alguém insiste em não querer esquecer e nervosamente são deixados para inevitavelmente e inexoravelmente serem encontrados.  É peça que falta de um jogo, de uma história que em hipótese nenhuma pode ser perdida, alguém insiste em não esquecer. O risco é desejado, inconscientemente esperado. O troféu.

A procura é bandida, impaciente, célere, reptiliana, na calada da noite, nos interstícios de oportunidades que custam acontecer. As mãos sôfregas e escorregadias buscam os esconderijos, os olhos de rapina vasculham as possibilidades e os ambientes propícios... as narinas dilatadas farejam odores dissimulados, a boca  distorcida procura um gosto, que depois de experimentado deixa a sica, incômoda e dolorida. Vasculhados os papéis, os pedaços de escritos, as agendas desconexas, os números recebidos e discados. De que? De sentimentos, momentos de vida que não lhe pertence. Aí, sou um guarda chuva velho, encostado num banco de trem... esquecido e perdido.

Perdidos

Perdido de perdidos na noite. Dentro da noite veloz. E furioso. Não sei onde deixei minhas chaves, minha agenda, minha carteira, meus óculos escuros, minha caneta e às vezes minha vergonha na cara. Tenho uma intensa relação de objetos, sentimentos e sombras (tudo perdidinho da silva) que caberiam no velho filme de Buñuel: los olvidados.

Perdi ou esqueci a senha. Tudo bem, eu a uso diariamente, mas me julgo no direito de esquecê-la. De perdê-la. Para exercitar o buraco negro que trago na memória. Mas eu perdi a senha, mesmo tendo-a anotada em algum papel/página de minha ridícula agenda.

Consigo me lembrar dos acontecimentos mais recônditos da minha infância, mas a senha foi “pro book”. Espero que o book de achados e perdidos da rodoviária velha de Cuiabá. Perdi meu certificado de alistamento militar e perdi o bonde da informação, porque depois de uma certa experiência terrena, esse documento improvável nem é mais exigido. Deus ajuda que nunca vou perder meu passaporte.

Perdi as fotografias do lançamento do meu livro e também já perdi o avião. Perdi entes queridos, amigos... Esses, segundo consta, vou reencontrar um dia. Dizem que não neste mundo. Perdi minha correntinha com um crucifixo numa onda caixote da praia de Copacabana quando adolescente. Perdi meu relógio seiko numa praia do Rio Coxipó no finalzinho dos anos 70.

Perdi no jogo da memória e alguns dentes. Mas não perdi o medo, o horror, de ir ao dentista.  

No final da noite, confesso, certa vez, perdi meu copo. A sorte é que venho perdendo também um pouco da memória minha funcional ao longo dos anos, o que significa que perdi a conta de tantas coisas que já perdi. O Fluminense também perdeu. Meu time perdeu os atacantes tricolores sequer perderam gols.

Enquanto eu não perder a vontade de escrever, pelo menos isso... Não sei... Esqueci, ou melhor, perdi o caminho que me levaria ao restinho de texto que ainda caberia aqui. Fim da picada.


*Texto reproduzido do site tyrannusmelancholicus.com.br , escrito a quatro mãos, por Lorenzo Falcão e Fátima Sonoda (in memoriam) 

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