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ENSAIOS

Sobre a memória

Você já se pegou absorto em memórias aleatórias, que você não sabe de onde vieram ou aonde vão assentar? Pois fui pego por uma delas nesse exato momento

Ensaios

EnsaiosEduardo Butakka é ator, professor de Teatro formado pela UnB e comunicólogo formado pela UFMT.

30/07/2021 17h50Atualizado há 2 meses
Por: Luciana Bonfim
Fonte: Eduardo Butakka

“A memória é um sino original Festa e Funeral” (Emily Dickinson)

Certa vez, quando eu era bem criança, eu voltava do mercadinho do bairro. Não me recordo o que eu havia ido comprar para minha mãe. Talvez alguma mistura para o almoço ou, sei lá, um absorvente. Minha mãe sempre naturalizou as minhas infindáveis idas ao mercadinho, seja para comprar o que fosse. Enfim.

Certa vez, em uma dessas idas, encontrei um bonequinho de plástico no chão. Um tipo de bibelô ou sei lá o quê. Ele era estranho, parecia um gnomo, um Quasimodo. Não sei. Só sei que era interessante como tudo que foge ao comum. Levei para casa e o dei para minha irmã. Ele era legal demais para ser meu. Tinha que ser o presente para alguém.

Minha irmã guardou esse boneco de pouco mais de cinco centímetros por anos. Ela se casou e levou a miniatura esquisita com ela. Ela se divorciou e carregou o enfeite disforme com ela. Talvez ela ainda o tenha. Não sei, parei de perguntar...

O bonequinho parecia incompleto. Parecia que faltava uma parte nele. Na verdade, ele parecia aqueles apontadores de lápis que vinham em formato de brinquedo. Uns que fizeram muito sucesso uma época. Mas esse não tinha o apontador. Parece que retiraram dele a utilidade e jogaram fora. Mesmo assim, quando o encontrei, pareceu-me um verdadeiro achado. Tanto que eu quis levar logo para casa. Acho que eu sempre fui dado a coisas incompletas...

Agora, pensando melhor sobre esses apontadores criativos, recordei-me que certa vez fui comprar os materiais escolares. Minha mãe disse para eu escolher um apontador de lápis. Eu escolhi um em formato de cachorrinho. Mas não era um simples cachorro. Era um cachorrinho triste. Se não me falha a memória, ele estava com a patinha enfaixada e com a expressão chorosa. Afeiçoei-me logo por ele. Ele parecia ter saído de uma daquelas ilustrações de papéis de carta que as meninas colecionavam. Sim, isso era coisa de menina, embora eu viajasse imaginando as histórias de cada um deles. 

Esse apontador também me acompanhou por anos, até que eu o perdi. Espero que alguém tenha encontrado o cachorrinho triste e cuidado dele, assim como eu encontrei o gnomo e ele nos seguiu pela vida, testemunhando nossas histórias tão extraordinárias quanto a ponta de um lápis.

Pronto, são 23h37 e eu já posso guardar essa lembrança e ir dormir. Eu sei que ela permacerá aqui, como tudo que se guarda. Eu poderei visitá-la quantas vezes eu quiser, mas não além do que a memória me permitir. A memória é a mãe do tempo.  

P.S: após escrever esse ensaio, procurei na internet o apontador de cachorrinhos. Encontrei em um site de artigos vintage. É a imagem que ilustra esse texto.--

Eduardo Butakka é ator, professor de Teatro formado pela UnB e comunicólogo formado pela UFMT

Nota do autor: para conversar sobre esse artigo comigo e com outras pessoas, procure o post desse artigo no meu instagram @eduardobutakka ou utilize a hashtag #ensaiossobreamemoria 

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