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11 DE SETEMBRO

Salvos por um indígena em 11 de setembro

Onde você estava no momento em que as duas torres gêmeas caíram em 11 de setembro de 2001? Todos temos uma história para contar. Eu estava dentro de um pequeno avião sobrevoando matas e cidades, perdida e sem rumo no ar.

Cacá Barros

Cacá BarrosCacá Barros é jornalista e reikiana, empenhada em fazer a diferença. Chegou em Mato Grosso em 1985, quando ficou conhecida por suas reportagens em tribos indígenas, no Pantanal e Chapada dos Guimarães. Editou a primeira revista sobre ecoturismo em Mato Grosso (Eco Tour News). Especializou-se em comunicação institucional, assessoria de imprensa, edição, roteiros, documentários, revistas, gestão pública em comunicação, marketing eleitoral, marketing empresarial, elaboração e divulgação de projetos

10/09/2021 20h11Atualizado há 1 semana
Por: Cacá Barros
Fonte: Cacá Barros

Quando o vôo 11 da América Airlines partiu de Boston, às 7h59, em direção a Los Angeles, eu estava no aeroporto de Cuiabá, acompanhada por um político, um piloto, um amigo e um indígena. Na época era assessora de comunicação e percorria o estado por terra e ar. O dia estava ensolarado como de costume, mas sempre é muito sofrido voar em época de queimada, o avião parece uma lata solta no ar, tamanha a turbulência que o fogo provoca. Geralmente, o piloto sobe acima das nuvens para fugir e tornar o voo mais agradável. Nesse dia especificamente não sofremos com queimadas e a visibilidade estava ótima. Não vou citar os nomes dos lugares e pessoas envolvidas, mas o que vou contar é uma história 100% real.

                Enquanto o piloto preparava tudo para o vôo eu pensava: “vou ter que colocar minha vida de novo na mão desse cara? Discretamente, já havia pedido para a empresa não escalar esse piloto para nossas viagens. Será que vou ter que fazer um “bafão” para me ouvirem? Eu não confiava num piloto que, recentemente, havia perdido a porta do avião, em pleno ar, por que não fechou direito. No entanto, eu era a única preocupada, todos estavam tranquilos e fazendo piada sobre o assunto. Inconformada, antes de subir no avião, liguei para empresa comunicando que eu não viajaria mais com aquele piloto e solicitando que evitassem constrangimentos na próxima viagem.

                Embarcamos no pequeno avião bimotor eu, meu amigo, o político e o índio. O piloto guardava um sutil sorriso nos lábios quando nos comunicou que daria uma carona ao índio, que viajaria sentado ao seu lado, já que nunca havia voado de avião.  Enquanto subíamos na aeronave, o assunto era a primeira viagem do jovem índio (devia ter uns 20 poucos anos). Ao decolar, todos os olhos e atenções focados nas reações faciais do índio. Mas para nossa decepção, ele não expressou manifestação de medo, surpresa, pânico ou mesmo um estrondoso entusiasmo. O indígena se manteve em silêncio, olhando a terra pela janela. E assim, seguimos viagem, comendo salgadinhos e jogando conversa fora, enquanto o índio silencioso parecia invisível.

                De repente, com pouco mais de meia hora de voo todos os instrumentos do avião entraram em pane.  Olhei para o piloto e percebi que ele mal conseguia disfarçar o pânico. Com os olhos esbugalhados, quase pedindo socorro, voltou-se para nós e comunicou que não sabia o que estava acontecendo.  Começou a voar sem rumo acima de uma floresta densa. O piloto não tinha ideia de onde estávamos, não sabia para onde ir, começou a voar em círculos, visivelmente perturbado. Não me surpreendi com a reação do piloto, sem seus instrumentos automáticos ele mal sabia conduzir o avião, mesmo estando numa rota conhecida, que fazia frequentemente. Estávamos, literalmente, perdidos no ar.

                Quanto temos de combustível para ficar voando sem rumo?, perguntei tentando assumir o controle da situação.  O piloto mal conseguia ouvir ou responder qualquer coisa. Fiquei resignada lá atrás, sem perder qualquer movimento. O indígena continuava em silencio, concentrado nas imagens lá embaixo. Até que começou a conversar com o piloto. Quase cochichando, ele apontava pra cá e pra lá, como se estivesse desenhando no ar um plano de vôo.

É impressão minha ou indígena está ensinando o piloto a se localizar? Esse índio nunca voou, não conhecia a terra de cima, mas reconheceu a mata, identificou o rio que se banhava todos os dias. O índio foi o GPS do piloto, era um bom guia na terra e no ar, ensinou direitinho o trajeto que deveria fazer para chegar até o aeroporto. Antes de pousar, os instrumentos voltaram ao normal e o piloto aterrissou tranquilamente. Desci rindo por dentro, já escrevendo na mente a história que tinha para contar, pensando numa chamada assim: “em seu primeiro voo, índio orienta piloto perdido no ar”.

Em terra, encontramos pessoas agitadas, falando ao mesmo tempo, grudadas na única TV do pequeno aeroporto de uma cidade do interior de Mato Grosso. O mundo tinha parado para ver uma das maiores tragédias de nosso século, a derrubada das torres gêmeas. O primeiro avião colidiu contra a torre norte do World Trade center às 8h46 min, e o voo 175 colidiu contra a torre sul às 9h03. Um total de 2996 pessoas foram mortas, incluindo 19 terroristas.

Na época, não tive coragem de escrever essa história hilária. A tragédia era muito grande para achar graça, e iria expor desnecessariamente todos os envolvidos. Mas nunca mais viajei com aquele piloto. E sou eternamente grata ao indígena por ter salvo nossas vidas. 

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