Farmácia
GATOS

COQUINHO

"Onze e trinta da manhã. Solão na cachola, finalizo a breve e solitária cerimônia da viagem de Coquinho"

Pinguela

PinguelaLorenzo Falcão é jornalista, escritor e poeta. Acumula longa experiência tendo passado pelos principais veículos de comunicação de Cuiabá. Desde 2010 é redator do site www.tyrannusmelancholicus.com.br , com foco em temas culturais. Já lançou seis livros, sendo o último, “Abobrinha”, de onde saíram os poemas que ilustram este texto

06/10/2021 16h01
Por: Luciana Bonfim
Fonte: Lorenzo Falcão

Gatos são animais majestosos. Parecem saber de sua prodigiosa natureza e vivem a ‘brincar de esfinge’. Meus parentes felinos são como uma extensão familiar. A perda desses bichos de estimação é dolorosa.

Coquinho, por exemplo, entrou em minha casa há alguns anos. Já bem adulto. Surgiu no portão, chamei-o e ele veio se chegando com a docilidade dos siameses e seus olhos azuis. Não sei de onde veio. Apareceu e foi entrando. Ficando. Mostrando-se um bicho de boa índole sem radicalizar na questão da territorialidade.

Impôs uma convivência perfeitamente pacífica com os outros felinos que já habitavam minha casa. “Será que é macho ou fêmea?”, indaguei-me quando chegou de mansinho. Olhei para suas partes recreativas e vi dois coquinhos. Ficou-lhe o nome na hora.

Já chegou velhão e já faz um ou dois anos que se torna cada vez mais ‘pepé’. Fica em locais estratégicos da casa como se fosse um bicho empalhado. Nem o pelo farto esconde mais sua magreza. Anda meio surdo e quando dorme, parece que treina para morrer. Às vezes deita-se próximo e de frente para a parede, como as crianças ficavam de castigo antigamente.

Tenho dois bichinhos bakairi de madeira em casa – uma tartaruga e uma paca (ou filhote de anta, sei lá) – que de vez em quando coloco perto de Coquinho, só pra ele ter companhia. Coquinho, nos últimos dias, parecia se aproximar mais e mais do seu encontro marcado com a indesejada.

No último sábado a ressaca me obrigou a ir até a farmácia. Era um dia de neosaldina. Chego ao portão e, na calçada em frente de casa, lá está um belo siamês endurecendo a mercê das moscas. “Porra Coquinho, tinha que morrer justamente neste sábado de dor de cabeça?”, sentencio. Mas, respeito os bichos de estimação e ritualizo a partida deles.

Voltei até a cozinha e peguei um saco de lixo preto. Fúnebre. Acomodei Coquinho nele e torei para as cercanias do cerrado próximas ao meu periférico bairro. Numa quebrada, com o coração, além da cabeça, me doendo, deposito Coquinho e cubro-o com pedras. Nenhuma lágrima me sobrou. Só tristeza cinza. Cinza é também um pouco a cor dos siameses.

Onze e trinta da manhã. Solão na cachola, finalizo a breve e solitária cerimônia da viagem de Coquinho. Passo na farmácia, compro minha neosaldina e tomo com coca-cola. A dor de cabeça já vai passar, mas Coquinho continuará doendo na sua ausência mais um tempinho. Aviso a mulher da morte de Coquinho, o que lhe provoca uma interjeição muda de sofrimento.

O filho acorda e deita-se na rede da varanda dos fundos. Também é informado que Coquinho já não está mais entre nós. Há um silêncio vazio na casa. Coquinho era gente boa, não enchia o saco de ninguém.

“Êeee pai,... mentiroso!”, diz o filho, sem motivo aparente. “Olha o Coquinho aqui”. E revejo Coquinho pescando pedacitos de ração no prato dos gatos. A tristeza recente foi-se embora e minha cabeça também já não dói.

Coquinho continua andando furtivamente pela casa, que nem um fantasma esquálido. ‘Pepé’ toda vida. Coquinho vai morrer, eu sei.

*Lorenzo Falcão é jornalista, escritor e poeta. Desde 2010 mantém o site Tyrannus Melancholicus, onde enfoca temas culturais. É colaborador do site Notícias de Chapada

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