Notícias de Chapada
SEM BATOM

Amor fati, hiperfelicidade e pressão estética

- Nietzsche e Krenak “sem nenhum batonzinho"

Filosofia do Mato

Filosofia do MatoAlianna Cardoso é mãe, advogada e pesquisadora. Mestra e doutoranda em filosofia, mestranda em direito

18/12/2021 09h17
Por: Luciana Bonfim
Fonte: Alianna Cardoso
Tirinha por @helodangeloarte
Tirinha por @helodangeloarte

Outro dia eu estava finalmente começando a sair de casa, me sentindo como se vendo a luz do sol depois de tempos no escuro, meio tateando as coisas e tonta com tanta claridade e a primeira frase que ouvi de alguém conhecido foi: "você engordou".

Primeiro eu fiquei catatônica. Na verdade eu já vinha me sentindo um extraterrestre por ter saído dos padrões nos últimos meses e por ter o espelho distorcido da cobrança estética o tempo todo latejando na cabeça. Mas ao mesmo tempo, a leitura com certa consciência de classe e sob uma visão progressista me capacitaram pra entender essa teia sistêmica, e então, eu de certa forma andava preparando argumentos mentalmente para essas abordagens.Então, assim que levantei do jeb de direita que levei, questionei o quão fútil alguém pode ser enquanto estamos vivendo uma pandemia onde mais de 700.000 pessoas já morreram, em levantar, quando me visse pela primeira vez em meses, o quanto eu havia engordado, e não o quanto estivesse feliz em me ver viva.

Bom, isso me rendeu muitas reflexões que casaram muito bem com outro tema que insurgiu outro dia num desses meus momentos de sair do isolamento quase total que ainda vivemos em razão do pandemônio: uma amiga querida me disse que eu precisava ser mais resiliente porque eu estava reclamando de como as circunstâncias afetaram minha saúde mental nesse período. E eu fiquei ali ouvindo ela e pensei em Hannah Arendt de uma forma às avessas porque até pra ser resiliente é preciso um certo privilégio. Mas mais que isso: pra reclamar é preciso uma noção da realidade que nem todos têm, graças ao imenso abismo social que existe no nosso país.

Agora uns dias depois desses dois acontecimentos, falando com a Lu (essa aqui do jornal mesmo) comentávamos o quanto a good vibes obrigatória tem sido ainda mais uma tortura nesses tempos em que cada um de nós viveu tanta coisa particular e sombria e dura (ou não), e nasceu esse texto que me traz de volta pra coluna de novo.

De fato quero falar sobre resiliência, cobrança estética, a obrigação de ser feliz e os privilégios.
Não estou aqui tratando das questões neuronais da resiliência e tampouco dos aspectos emocionais. Quero falar sobre a romantização do sofrimento e a necessidade de que isso nos ensine algo e saiamos dessa feito fênix e (para as mulheres magras, lindas e com a pele e o cabelo bem tratados).

Vivemos a era da felicidade forçada e eu já falei disso várias vezes incluindo aqui (o primeiro texto dessa coluna foi sobre isso). Mas hoje vou trazer pra uma outra órbita para a qual é preciso uma compreensão distinta da que usamos no cotidiano para vencer problemas.

Ailton Krenak*, sacou uma frase a qual uso como ferramenta pra pensarmos aqui nesse texto:
“Essa experiência da pandemia foi arrasadora, mas tenho dito que ela não ensina nada. Só se for ensinar a correr, se esconder. Me perdoem os que são brancos, mas não sei de onde vem essa mentalidade branca de que o sofrimento ensina alguma coisa. Se ensinasse, os povos da diáspora estariam todos curtindo demais o século 21, depois de terem passado o inferno que passaram na escravidão. Não quero aprender nada se for para sofrer“.E é bem isso.

Nossa cultura ocidenal cristianizada e branca eurocêntrica vê no sofrimento uma passagem para a salvação. Nietzsche fala muito sobre isso. Aliás Nietzsche fala sobre o niilismo como a negação desse mundo em nome de um "outro mundo". Se fôssemos interpretar isso sob o viés da pandemia e todas as merdas que estamos vivendo, seria como pensar que estamos galgando nosso pedaço de céu vivendo à margem da alegria.

O fato é que nesse século XXI, onde insurge o metaverso e há bilionários fazendo turismo para o espaço, o vazio existencial fica como preenchido pelo agora de uma forma bastante distorcida, numa busca incessante pela felicidade e a sua consequente obrigatoriedade. Nasceram os coachings, os terapeutas sistêmicos e os personal organizers para nos ajudar a encontrar a alegria no meio do caos da vida porque de Lipovetsky a Marcuse, o capitalismo tardio gerou a órbita da hiperfelicidade e o imediatismo de "viver cada dia como se fosse o último" traz uma noção de esvaziamento da vida frente ao tédio e a dor a ser preenchido com botox, look do dia e dietas (para as mulheres, claro. Para os homens a órbita da cobrança estética é bem menos agressiva. Não que não exista).

A obrigação de dar a volta por cima logo. A cobrança para estar feliz. A negação da dor da vida.
Eu trago esse contexto filosófico nietzschiano sob o recorte da fala do Krenak porque em meio à maior crise humanitária que o mundo já viveu (sim, dadas as devidas proporções, essa pandemia foi pior que as demais), o enredo do "não podemos parar de viver", "precisamos ser resilientes" e "o sofrimento ensina" se emaranha com as obrigações de estar magro, bonito e bem cuidado. Não há tempo para a crise.

Ocorre que até para "não haver tempo para a crise" e praticar a good vibes é preciso um bocado de privilégio. Veja: eu como mulher ouço muito que preciso me cuidar, "dar um tapa no visu" e me sentirei melhor. Também ouço da necessidade de "jogar somente coisas boas ao universo", mas enquanto escrevo esse texto estou preocupada com minha mãe, minha filha, minha cadelinha que acabei de internar no veterinário para uma cirurgia de risco, minha vaga no emprego em 2022, o preço do veterinário, o contexto da escolinha da pequena no ano que vem, o carro que está começando a bugar, entre tantas outras coisas que sequer quero mencionar. A última coisa que me preocupa nesse momento é se estou magra o bastante, bonita o bastante, se pareço alegre o bastante. A mim não sobra muito tempo para correlacionar sucesso pessoal com beleza estética nesse momento, mas a pressão está aí.

O que quero defender aqui é que toda essa good vibes é também uma negação da vida, corroborada por uma série de crenças sobre o suposto poder do sofrimento e da resiliência enquanto resquício da culpa cristã sob a órbita do que Nietzsche irá chamar niilismo negativo. O convite, a exemplo de Krenak, é pra pararmos de romantizar o sofrimento, e por Nietzsche, valorizar o caos na afirmação da vida. É um "aceita que doi mesmo". O que Nietzsche vai chamar de amor fati.

O resumo da ópera é que sim, engordamos, estamos péssimos, a vida anda mais difícil que o normal, não estamos grata pela pandemia e não acho que mereceremos o reino dos céus por sermos resilientes e está tudo bem. A vida é caótica mesmo e nem sempre há tempo para passar um batonzinho, ou acordar e ir para academia (que aliás ainda é um local de risco de contaminação de covid), nem mesmo argumentos sólidos que defendam a tortura de uma dieta alimentar restritiva enquanto estamos assistindo tanta gente passando fome e tem sido duro. A questão é que amor fati corresponde à aceitar mas não de forma negacionista ou sequer resiliente os percalços da vida. É só vivê-la. Caótica e por vezes desarrumados quando inexistem privilégios de negar a realidade. Eu quero afirmar a vida, marcar uma cervejada com gente real pra reclamar mesmo do governo, do preço do combustível, da miséria. Quero dizer que a pandemia é uma desgraça sim e que nada justifica (nem mesmo o reino dos céus) tanta gente ter morrido por negligência do Estado enquanto tantas outras não quer se vacinar. Eu quero afirmar e não negar. Talvez isso não me torne instagramável (outro ponto central nessa época tão líquida), mas me torna real e pouco alienada, com um "bocadim" de consciência de classe e que sem ser "resiliente" em termos coachinianos, ou estar fitness como quer o sistema afirma: "real, tendo engordado, sem ser resiliente e por vezes sem nenhum um batonzinho".

* líder indígena, ambientalista, filósofo, poeta e escritor brasileiro da etnia indígena crenaque. Ailton é também professor Honoris Causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e é considerado uma das maiores lideranças do movimento indígena brasileiro, possuindo reconhecimento internacional.

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