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Cultura POESIA DO COTIDIANO

Marear

São mais nossas as sensações de abandono, de incerteza, de água e sal. São mais nossas, essas coisas do mar. 

01/05/2022 14h38 Atualizada há 3 semanas
Por: Marília Bonna Fonte: Marília Bonna
Via Pinterest
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Minha avó dizia uma coisa bonita quando sentia enjôos: dizia estar “mareada”. Ela estava ali, sentada em uma poltrona bege na sala de seu apartamento, feito (como todo edifício) de concreto armado – laje, viga, pilar, aço –, tão cravado no chão, com suas fundações subterrâneas, quanto algumas árvores centenárias; ela estava ali, na sala de seu apartamento, profundamente imóvel. E, no entanto, dizia-se “mareada”, tomada pela misteriosa sensação de estar no mar, à deriva.

Eu nunca estive em alto-mar; minha avó, sim. Minha avó já cruzou oceanos, já flutuou dentro de navios, já esteve mareada. “Marear” é, inclusive e espantosamente, um verbo que existe no dicionário: ainda que pareça poesia; ainda que pareça o verbo impossível – aquele que gozaria da maravilhosa capacidade de transformar as coisas, qualquer coisa, em água salgada e mistério. Imagino alguém chegando até mim e dizendo: “você ficou sabendo de fulana?” e, diante de minha recusa, diante de meu sobressalto, complementando, em voz baixa: “mareou”. Eu pensaria, então, romântica, nostálgica: “fulana virou mar”. Mas, não. Trata-se apenas de uma palavra muito inspirada para, entre outras definições, dar nome a sintomas comuns – e nada poéticos – de navegação, de navegadores: a náusea, o suor excessivo, a tontura, a cólica, a vertigem.  

Chama-se “mareio” ou, bem menos interessante, “cinetose”. E é o que acontece quando nosso corpo perde a informação sensorial relativa à sua posição no espaço; quando nosso corpo entra em conflito e não sabe mais se está parado ou em movimento; não sabe mais se vai ou fica. E manda notícias desordenadas para o cérebro, perturbando o sistema vestibular – aquele que é responsável por nossa sensação de equilíbrio. Ou seja, por mais que a gente tenha – a bordo de uma embarcação – a impressão de estar imóveis, não adianta: o corpo percebe que vacila, que duvida, que hesita; o corpo pressente o desamparo. Sobretudo, o corpo feminino, segundo a literatura médica a respeito do assunto: que, embora homens e mulheres possam ser afetados por essa condição, ela acontece com muito mais freqüência nas mulheres. São mais nossas as sensações de abandono, de incerteza, de água e sal. São mais nossas, essas coisas do mar.

Não só as pernas compridas demais, a inexplicável membrana entre os dedos, os pés de remo, a falta de pelos, a aparência geral de marinheiros deslocados – que, para alguns, são sinais inequívocos de que viemos todos de mares imemoriais, de um passado submerso –, mas não só essas pernas: há também, comprida demais, uma ausência – esta sim, só encontrada em nós, em nossa incompreensível capacidade de espera. O que quero dizer é que: se há mesmo, marcado na memória profunda, esse mar primordial, nosso corpo (e, a partir daqui, toda vez que eu disser “nosso corpo”, estou me referindo ao corpo feminino, ao meu corpo), segundo me parece, nunca conseguiu se recuperar dessa falta, guardando – magoado – os vestígios desse tempo irrealizável, como aquelas conchas perdidas que continuam reverberando o som antigo do mar.

Não fosse isso e não choraríamos tanto. Há alguns anos, li sobre uma pesquisa alemã acerca do fato de chorarmos, no mínimo, duas vezes mais que os homens – e de forma mais dramática (essa foi a palavra que eles usaram para descrever o momento em que nosso choro se torna compulsivo, o que aconteceria, segundo o estudo, na maior parte dos casos). É evidente que o recorte desse estudo é limitado temporal e geograficamente, a história das lágrimas é longuíssima e, sobretudo, social e cultural, mas curiosamente alguns cientistas acreditam também em razões biológicas: uma delas, o fato dos nossos canais lacrimais serem mais curtos – o que facilitaria o caminho da água salgada: como se estivéssemos mais perto de algum mar oculto, guardado como um segredo debaixo da pele, ao redor dos ossos, escapando pelas cavidades. No entanto, o que me chamou mais atenção durante a leitura foi saber que, na pesquisa de campo, eles perceberam que os motivos que levam um e outro a chorarem são também diferentes: enquanto os homens choram mais quando veem uma pessoa próxima chorar ou por fracassos de amor; nós choramos quando nos sentimos inadequadas, quando nos aproximamos de nossos limites e, ainda mais inevitável, quando nos lembramos.

Como se fosse possível não lembrar, tendo este corpo que, quando não carrega ausências, carrega pequenos e indecifráveis animais aquáticos; este corpo que guarda, em sua estranha anatomia de mamífero terrestre, conchas dissimuladas sob a pele, feito as que encontramos, com freqüência, escondidas nas pedras de Chapada dos Guimarães (que – dizem –, há 300 milhões de anos, era fundo do mar) – uma espécie de saudade fossilizada: a memória, incrivelmente fixa, das águas.

A concha é um órgão rígido – nácar, aragonite, cálcio cristalizado – feito para proteger o corpo mole e viscoso – o corpo frágil – dos moluscos (e das memórias?) e para guardar a umidade, a fim de que eles (os moluscos, as memórias) não corram o risco de ressecamento. No universo dos símbolos, representa a fecundidade – porque vem da água (signo maior da fertilidade); porque de dentro dela podem irromper pérolas inesperadas; porque, em alguns de seus formatos, lembra uma vagina. Não por acaso, em espanhol, se usa – ainda que de maneira vulgar – chamar de “concha” o órgão sexual feminino, e de “Conchita” a mulher cujo nome seja “Concepción”. Conchas podem ser também duas orelhas plantadas em nosso crânio, que guardam não as ondas do mar, mas as sonoras. E são ainda um jeito certo e muito delicado de juntar as mãos quando precisamos carregar o efêmero. Finalmente, concha é aquilo que fica – que atravessa períodos geológicos, eras – quando a substância que a compunha já se deteriorou há tanto tempo, que, na verdade, desconfio, seja um órgão inventado para proteger o vazio, nosso vazio.

Que há de ter algum vazio: se não, por que este corpo, que está sempre em dívida, este corpo infinitamente à espera? Não apenas nos nove meses de gestação ou nas vinte horas intermináveis de trabalho de parto; não apenas no puerpério, quando aguarda – aflito – a volta dos órgãos aos seus lugares de origem, para que disfarcem o buraco irreparável que outro corpo deixou; nem nos dois anos de amamentação; nem nas noites eternas que atravessa sem descanso – sonâmbulo, exausto, incompreendido. Mas desde (e para) sempre corpo (socialmente) atravessado pela falta: do falo, da fala, do filho. E do outro e do outro e do outro filho.

Por que este corpo prestes a se desmanchar? A se desfazer; a se dividir; a virar dois ou três ou mais: nunca unidade, nunca o bastante. Corpo que (nos) escorre, corpo que (nos) escapa. Como se estivéssemos todas na iminência de desaparecer.

- Aliás, você ficou sabendo de fulana?

 

 

 

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As dimensões do breve
Sobre As dimensões do breve
Marília Bonna está em algum lugar entre o Rio de Janeiro – onde nasceu – e o Mato Grosso, onde foi criada. Habituada a fronteiras, gosta de estar entre a imaginação e a realidade. Por isso escolheu estudar Literatura, tornando-se mestre em Estudos Literários pela UFMT e leitora inesgotável, continuamente dividida entre aquilo que existe e aquilo que deveria existir. Adotou também o ofício de livreira, que exerce no Sebo Rua Antiga em Cuiabá, fundado por ela e seu companheiro, Thiago Iusso
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