Há 47 anos, em 13 de outubro de 1977, foi assinado o convênio para a elaboração do Plano Diretor de Turismo de Chapada dos Guimarães, um projeto visionário desenvolvido pelo renomado arquiteto Lúcio Costa, autor do Plano Piloto de Brasília. O documento, elaborado com a colaboração dos arquitetos Paulo Jobim e Maria Elisa Costa, filha de Lúcio, buscava transformar o município em referência de turismo sustentável em Mato Grosso.
A proposta partia de um estudo aprofundado da natureza e da vida cotidiana dos moradores. Em suas anotações, Lúcio Costa descreveu a região como um lugar que "surpreende e seduz o visitante", destacando a diversidade de aspectos naturais e sua fácil acessibilidade. Quase cinco décadas depois, apenas parte do plano saiu do papel, como a criação do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães e a idealização do Festival de Inverno. Muitas diretrizes foram esquecidas pelo poder público.
O arquiteto e urbanista José Afonso Portocarrero, secretário de Meio Ambiente de Cuiabá, define o projeto como visionário. "Foi um precursor dos planos diretores com participação comunitária: ouviram as pessoas, fizeram entrevistas, tudo isso está refletido nas propostas", destacou. O plano incluía desde intervenções no Portão do Inferno, com estacionamento e abrigos, até a criação de trilhas, mirantes e um parque nacional.
Paulo Jobim revelou, em entrevista de 2012 ao WWF, que o projeto originalmente turístico se transformou em um código de uso para toda a região. "Criamos ali o que depois viria a ser o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães. Fomos nós que criamos esse parque, ainda municipal", afirmou. A ideia foi concretizada uma década depois, em 1989, com a criação do parque nacional, hoje administrado pelo ICMBio.
O plano também previa melhorias urbanas como a preservação do centro histórico, asfaltamento de ruas, construção do mercado municipal, arborização e a implantação do Museu da Chapada. Propunha ainda lotes urbanos de 600 m², com quintais para criação de animais e plantio, mantendo a integração entre áreas rurais e urbanas.
Marcelo Portocarrero, engenheiro que atuava na Turismat à época, relatou que partes do projeto não puderam ser realizadas devido a exigências de padrões nacionais da Embratur. "O planejamento do plano geral da Embratur não correspondia ao que Lúcio propôs, então tivemos que nos adaptar para obter o financiamento", explicou.
Para a arquiteta Gabriela Ranquel, do Iphan-MT, que estudou o plano durante a graduação, seu maior impacto foi o olhar pioneiro para um turismo ambientalmente correto. "Foi pensada toda uma arquitetura já da terra, fácil para o povo construir, utilizando os materiais locais", destacou. Ela lembra que propostas como a preservação do sobrado histórico e a criação de festivais de música em espaços abertos ainda são relevantes.
José Portocarrero ressalta que, apesar das mudanças urbanas e da pressão imobiliária, o plano mantém sua atualidade. "É um projeto que serve de referência para nós até hoje, que precisa ser discutido nas universidades, nas escolas e, principalmente, deveria ser uma referência importantíssima para a Prefeitura", finalizou. O legado de Lúcio Costa para Chapada permanece como um documento histórico que antecipou conceitos de sustentabilidade e planejamento territorial integrado.